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Divórcios fáceis?
Não existem! Por mais que assim o desejemos

Não há divórcios fáceis. Nem mesmo quando eles trazem um alívio pelo qual se ansiou anos a fio. Nem sequer quando duas pessoas, de forma cordata, concordam em separar-se sem rancores aparentes, e repartem a casa, os móveis e os garfos, e dividem a guarda dos filhos e as responsabilidades que eles trazem consigo e apuram, todos os dias. 

Não há divórcios fáceis. Porque o caminho que vai duma paixão até à decepção é doído e pedregoso. Primeiro, porque castiga com dúvidas todas as certezas que só o amor nos dá. E nos leva - de surpresa em surpresa - pela resignação adentro de irmos do amor à amizade, e da amizade à aceitação de termos, unicamente, um aconchego ou uma companhia. E daí à “sensação” (agreste!) de descobrirmos que quem está ao nosso lado - por nos ir desconhecendo todos os dias, mais um bocadinho - deixa de estar connosco e nos agride de cada vez que nos dá mais uma prova que deixou de saber gostar de nós. Depois, porque nos enche de medo. Por nos destapar os olhos e nos levar a reconhecer que, afinal, nos enganámos. Ou - muito pior - por descobrimos que deixámos de saber interpretar gestos e sinais amorosos a ponto de, várias vezes num mesmo dia, nos sentirmos acolhidos, mal-amados, desamparados, ignorados, agredidos, acolhidos, mal-amados, desamparados ... E tudo se repetir com tantas contradições - que se atropelam - que a vida nos magoa. A seguir, porque nos envergonha e nos humilha. Para que, no fim, trazer consigo o desamparo de nos sentirmos sós a tactear essa dor. Sós a senti-la, a percebê-la e a pensá-la. E sós, sobretudo sós, a resolvê-la. E muito, muito sós, ao reconhecer que a pessoa de quem nos estamos a divorciar se torna egocêntrica, e fica feia, e fica má, e nos assusta. E, ainda assim, dividimos com quem menos gostamos aqueles que mais amamos: os nossos filhos.

Não há divórcios fáceis. Porque por mais que eles sejam “amigáveis” guardam ressentimentos, litígios e rancores. E por mais que nos alivie afastarmo-nos dessa pessoa, depois disso, ela passa a viver connosco, para sempre, em nós.

Não há divórcios fáceis. Porque se com um divórcio recuperamos respeito por nós, anos de vida, garra, entusiasmo e liberdade, perdemos amigos, perdemos pessoas da família e perdemos todos os demais que, quando mais precisámos de não nos sentirmos desgarrados ou abandonados, nunca nos terão sabido resgatar e nos levaram a descobrir, tragicamente, que fomos vivendo, sem dar conta, acompanhados por muitos enganos.

Não há divórcios fáceis. E os nossos filhos tornam-nos muito, mas muito mais difíceis. Porque lhes devemos a lealdade de não denegrirmos a mãe ou pai de quem nos separámos, mesmo quando nos sentimos cúmplices, em silêncio, de alguém a quem nos demos e que se tornou, com a nossa ajuda, quem mais nos magoou. E porque não podemos exigir que eles, ao mesmo tempo que nos amam sem reservas, tomem como suas as nossas dores e, por causa delas, castiguem quem menos e quem pior nos amou. Mesmo que essa pessoa seja o pai ou a mãe de quem nos separámos. E porque os nossos filhos nos obrigam a reconhecer em si parecenças com essa pessoa que, secretamente, desejaríamos que jamais eles tivessem. E exigem que continuemos a ter que pronunciar o nome dela e a conviver, para sempre, com a sua presença na nossa vida. E a termos de lhe atender o telefone ou lhe dirigirmos a palavra. E, de cada vez que o fazemos, a confrontarmo-nos com os nossos erros que, dessa maneira, nos perseguem, se acentuam e atormentam. 

Não há divórcios fáceis. Porque, a seguir a um divórcio, a pessoa de quem nos separámos enviesa e inquina outros amores. E, às vezes, nos leva a ansiar por alguém tão diferente daquilo em que ela se tornou que, a seguir, parece que não estamos à procura de outro amor mas a fugir a um que insiste em nunca deixar de se imiscuir nos nossos gestos ou até, mesmo, de nos perseguir. Ou por tudo aquilo com que nos magoou, nos leva a querer tanto e tanto que quem venha, de novo, a encher com luz o nosso coração seja tão precioso e especial, que todas as pessoas de quem nos aproximamos parecem ficar aquém de tudo aquilo do que precisamos para cicatrizarmos as nossas dores e para nos esquecermos de todas as desconfianças que quem deixámos deixou, enraizadas, dentro de nós. 

Não há divórcios fáceis! Mas é por nunca ser fácil que um divórcio apura, todos os dias, as convicções que mais nos movem em direcção a um grande amor.

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