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E se fosse consigo?
Na continuidade do que já escrevi sobre a Supernanny parece-me importante abordar novamente algumas questões

Voltarei, em princípio, uma última vez ao programa Supernanny, da SIC. Ou, melhor, a muitos comentários que ele tem vindo a suscitar e que, parece-me, será prudente que possamos pensar.

A primeira das observações - talvez aquela que mais se destacou para além das reacções de desagravo, que o  programa mereceu da Unicef, do Instituto de Apoio à Criança, da Comissão Nacional de Promoção de Direitos e Protecção de Crianças e Jovens e da Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados - foi: “Mas estas famílias existem!”  A resposta será: existem! Mas, ao contrário do que se tenta dar a entender - transformando uma “violação desproporcionada dos direitos de personalidade dos menores, em especial o seu direito à reserva da intimidade da vida privada”, como recorda a Ordem dos Advogados - um programa com este formato não é um serviço público.

Em primeiro lugar, porque por mais que estas famílias existam, são uma imensíssima minoria de famílias. Não representam, pois, nem os pais nem as crianças portuguesas, na sua generalidade. Isto não é bem um “retrato real”! Aliás, receio que se confunda, com uma leveza que não protege nem as crianças nem os seus pais, uma birra com atitudes de imensa angústia e, potencialmente, doentes que algumas crianças possam ter, de facto. Refira-se que - neste momento - me estou a refugiar no abstracto, deliberadamente, de forma a proteger todas estas crianças. Todavia, uma birra, crianças birrentas, crianças impulsivas, crianças agitadas ou crianças violentas representam realidades tão distintas como uma dor de cabeça que resulta duma situação ansiosa e uma dor de cabeça que possa ser consequência de um tumor intracraniano. É claro que um jornalista não tem de as discernir. Mas não pode presumir que, se a olho nu, parecem idênticas, não existirão diferenças a separá-las. Por outras palavras, se exibir publicamente a privacidade e as dificuldades de uma criança nos deve levar a sinalizar, inequivocamente, esse perigo (como, aliás, de forma reservada e prudente o fez, por exemplo, a Comissão Nacional de Promoção de Direitos e Protecção de Crianças e Jovens), permitir que haja a hipótese de expor crianças em estados de sofrimento significativos ou, porventura, que precisem de ajuda urgente, porque (por hipótese) estarão um bocadinho “doentes”, é, seguramente, muitíssimo mais grave! Sobretudo quando se exibe esse sofrimento e ele é transformado num programa de entretenimento. 

Em segundo lugar, tem-se afirmado, sobretudo depois do primeiro programa, que “as crianças são assim!”. Dando-se a entender que elas são indisciplinadas, agitadas, mal-educadas, etc. Ora, sejamos razoáveis: as crianças não são assim! Aliás, não há crianças sem pais. E não se trata de os culpabilizarmos por tudo e por mais alguma coisa. Mas, simplesmente, de reconhecer por trás duma criança difícil estão sempre dois pais em dificuldades. E que, sempre que às crianças - outra vez em abstracto - são atribuídas características como: “são muito cruéis umas para as outras”, “são muito indisciplinadas”, “não respeitam ninguém”, são “mentirosas”, etc. alguns adultos parecem identificar mais depressa nelas os defeitos que mal reconhecem em si. Ora, regra geral, as crianças são vivas, mexidas, curiosas, leais, bondosas, solidárias, atentas, delicadas, e por aí adiante. Quando alguém lhe dá a mão elas dão-se com um mundo de coisas. A quem serve, então, este discurso demagógico sobre as crianças? Às pessoas que, reconhecendo os maus exemplos que lhes dão, acham que a disciplina substitui a lei? Às pessoas que, diabolizando todas as crianças, se desculpam por aquilo que não dão às suas? Às pessoas que se desencontraram, vida fora, de tudo aquilo de bom, de ingénuo e de “infantil” que, por exemplo, os sábios são capazes de ter, e repetem, nas entrelinhas, que “o pior do mundo” são as crianças? A quem serve que se falte à verdade quando se fala das crianças? (Já agora, será importante afirmar que as crianças “retratadas” nos programas também não são assim. Mas, afinal, como seria de esperar que qualquer um dos nossos filhos reagisse a vários estranhos dentro de casa, com câmaras, luzes e microfones, a filmá-los nos mais diversos momentos da sua vida, banhos incluídos? Não seria de esperar que reagissem mal? Não seria razoável que se insurgissem, das mais diversas formas, por permitirmos que houvesse quem “invadisse” as suas rotinas, o seu recato e a sua privacidade? Como pode uma situação atípica como essa, que não tem nada a ver com os seus dias, ser tomada como um “documentário”?) 

Em terceiro lugar, disse-se também que, depois do programa (presumo que se queira dizer: depois da semana de gravações de onde resultou a edição dos conteúdos), já se notariam francas melhorias nalgumas destas crianças e nas suas famílias. Peço desculpa por duvidar! Como será sensato compreender, a mudança de comportamentos, a transformação dos estilos de parentalidade ou a capacidade dos pais e dos filhos ultrapassarem as suas dificuldades, de forma clara e irreversível, não passa por esta espécie de “faça você mesmo”. É, inequivocamente, muito mais complexo de trabalhar. E - por mais que seja respeitável a generosidade de quem promove o programa, de quem o lança ou de quem o protagoniza - não é verdade que tantas transformações se conquistem ao fim de um conjunto de recomendações. Para mais, que correm o risco de confundir, perigosamente, comportamentos que, parecendo semelhantes, têm a separá-los etiologias muito diferentes e, em consequência disso, evoluções muito distintas. Aliás, quando, no âmbito da intervenção psicológica junto das crianças e dos seus pais, uma mudança é súbita e quase “do dia para a noite”, qualquer clínico, minimamente experiente, interpreta-a mais como um comportamento que parece adequar-se às expectativas de quem o promove do que o resultado duma transformação intrínseca de um conjunto de factores que, convergindo uns para os outros, o terão desencadeado. Por outras palavras, nada, na transformação verdadeira dos pais e das crianças, tem “um efeito imediato”. 

Em quarto lugar, tomando em consideração os três últimos pontos, insistir-se no “lado pedagógico” deste programa  contraria essa intenção. Porque se, por um lado, qualquer intervenção psicológica se deva acompanhar de sugestões pedagógicas, já não é verdade que, unicamente com elas, a necessidade de uma intervenção psicológica, junto de crianças e de famílias que dela necessitem muito, deixará de se colocar. Mais uma vez, receio que, por mais que a intenção não seja essa, transformar uma intervenção psicológica num apoio pedagógico possa levar a que se promova um equívoco que, em muitas circunstâncias, mais do que auxiliar pais necessitados, os leve (muitas vezes) ao engano. Contra a vontade de todos. 

Em quinto lugar, é importante que se esclareça se estaremos a falar de um programa informativo, dum programa formativo, de um documentário ou de reality show. Parece-me a mim que, a exemplos de outros reality shows, a ideia não será tanto a de nos vermos ao espelho. Mas, antes, de encontrarmos pessoas capazes de levar por diante comportamentos tão longínquos dos nossos que, de certa forma, nos levem a sentirmo-nos, secretamente, muito melhores. Mas que isso se faça com crianças, será prudente?

Em sexto lugar, falou-se, também, dos blogs ou de programas que, com os pretextos mais diversos, possam atentar contra os direitos de personalidade das crianças sob o patrocínio dos seus pais. E que, nalguns casos, lhes trarão contrapartidas muitíssimo superiores aos mil euros que cada uma destas famílias terá recebido. Presumo que, depois da medida corajosa da Comissão Nacional de Promoção de Direitos e Protecção de Crianças e Jovens teve, desta vez, tenha uma longa tarefa pela frente, protegendo as crianças que devem ser protegidas. Sendo certo que, ao contrário daquilo que aqui se passa, aí não se correrá o risco de confundir comportamentos saudáveis e comportamentos “doentes”, nem entretenimento com informação, nem documentários com reality shows.

Em sétimo lugar, fala-se dos outros países em que o programa foi exibido. É verdade. Mas pergunto-me por que motivo não pode o Estado Português ser mais amigo das crianças do que muitos desses países e dar sinais que está atento e é célere quando se trata de as proteger. Presumo que isso mesmo tenha sido adiantado pelo Ministério Público ao abrir um inquérito ao primeiro episódio de Supernanny para “investigar factos suscetíveis de integrarem o crime de desobediência”, depois de, em articulação com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Loures ter dado 48 horas à estação televisiva para retirar as imagens do primeiro programa. Por outras palavras, como pode a protecção dos direitos das crianças ser considerada “politicamente correcta”?

 

Em oitavo lugar, falou-se de consequências quase catastróficas de programas desta natureza e, noutro contexto, da forma como as crianças que os protagonizam são inteligentes e terão sido informadas sobre eles, minimizando quaisquer custos que eles possam ter. Ora, as consequências de uma exposição pública destas, que perdura pela vida fora, pode ser um factor adjuvante que - nalgumas circunstâncias, e em função de acontecimentos de vida graves que convirjam uns para os outros - possa contribuir para descompensar quem é exposto. Nunca numa relação de causa/efeito. Mas sem nunca se presumir que nada disto não possa trazer danos. Por outro lado, a inteligência das crianças não será para aqui chamada. Basta que recordemos uma ou outra alínea com que a Lei configura o perigo a que as crianças possam ser expostas. Uma criança estará em perigo, passarei a citar, quando:

"(...) d) É obrigada a actividades ou trabalhos excessivos ou inadequados à sua idade, dignidade e situação pessoal ou prejudiciais à sua formação ou desenvolvimento;

e) Está sujeita, de forma directa ou indirecta, a comportamentos que afectam gravemente a sua segurança ou o seu equilíbrio emocional;

f) Assume comportamentos ou se entrega a actividades ou consumos que afectem gravemente a sua saúde, segurança, formação, educação ou desenvolvimento, sem que os pais, representante legal ou quem tenha a guarda de facto, se lhes oponham de modo adequado a remover essa situação. (...)"

Em nono lugar, tem-se justificado um programa como este como uma alternativa à ausência de respostas prontas, sensatas, claras e seguras que os pais enfrentam quando necessitam de apoio no âmbito da saúde mental. É verdade que essa rede, desmantelada há muitos anos, é uma lacuna muito grave nas resposta de saúde, quer elas sejam estatais quer sejam mediadas, por vezes, por seguradoras. Mas fará sentido substituir a ausência de respostas em saúde mental por um programa que, contrariamente a convicção de quem o defende, pode confundir e pode trazer respostas que, consoante as crianças a quem são aplicadas, podem onerar ainda mais dos problemas que estes pais já vivem com os seus filhos? E, por maioria de razão, quando ninguém discute que eles os amem e, por isso mesmo, reconhecendo que só precisam de muita ajuda para os solucionar?

Em décimo lugar, não deixa de ser curioso que a mesma televisão que transmitiu o programa “E se fosse consigo?”, que apelava para a necessidade de trazer para a discussão pública, cívica e comprometida, temas tão diversos como o bullying, os maus-tratos, a violência ou a discriminação, exiba o programa Supernanny. Serão os valores de um e de outro compatíveis? Sejamos razoáveis: se um programa como este é tão inócuo, como se diz, por que motivo uma pergunta do género: “E se fosse consigo?”, a propósito de um dos nossos filhos, não merece um movimento súbito no sentido de nos inscrevermos nele? Afinal, não se trataria, unicamente, de um “documentário”? Afinal, não será legítimo que queiramos para todas as crianças aquilo que ansiamos para os nossos filhos? Aliás, é porque muitos de nós fazemos nossa a medida “e se fosse consigo?” que é legítimo que apelemos ao bom senso. Só isso! 

Quase a terminar, é verdade que fui convidado pela SIC para o debate de segunda-feira à noite, sobre este programa. E é verdade que declinei. No entanto, tive o cuidado de transmitir que o fazia seguindo um pressuposto: recusava-me a colaborar com qualquer inciativa da SIC enquanto este programa se mantivesse no ar. Por mais que a SIC vá sendo “a minha televisão”. Por mais que lá estejam alguns amigos meus. E muitas pessoas por quem tenho uma imensa admiração. Pela sua seriedade, pela sua coragem e pela forma como são determinados. Depois disto, com imensa tristeza (e com dificuldade de compreender como se compatibilizam na mesma estação projectos tão distintos como a SIC Esperança e a Supernanny), receio que a SIC possa ir deixando de ser a televisão de muitos outros portugueses. E isso, reconheço, custa-me. 

E, finalmente, seria um desprestígio para a SIC recuar e retirar o programa da sua grelha? Perderia respeito e admiração por isso? Não poderia, antes, granjear, com um acto desses, muitos “pontos” na imagem da marca SIC, que “só” a prestigiaria? 

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