Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Estado de emergência parental
a vida em estado de sítio: 43

O fim de algumas das medidas impostas pelo Estado em resposta a esta pandemia não corresponde ao fim do "estado de emergência parental" que os pais têm vivido. Até porque muitos daqueles que se encontravam em teletrabalho permanecem nessa condição. Agora, cada vez mais cansados. E com a preocupação acrescida de, se for o caso, gerirem o desconfinamento social dos seus filhos quando começam a regressar às creches e à escola, sem que tenham, ainda, dados irrefutáveis acerca das consequências que recairão sobre eles. Acresce que talvez o tempo para si próprios talvez não seja a questão mais premente da vida dos pais durante a quarentena. Na verdade, as preocupações com os seus filhos, com os seus pais e com o seu trabalho terão feito (e continuarão a fazer) com que os pais não tenham, sequer, oportunidades para pensar em si mesmos. Nos seus conflitos e nas suas relações pessoais. O que, com prudência, talvez nos leve a considerar que, quando se der um verdadeiro "desconfinamento parental" (porventura, nas férias grandes), o "estado de emergência parental" em que têm vivido - que os "obriga" a funcionar, quase sempre em "modo de alerta" e sem espaço para mais nada que não seja para as responsabilidades que têm com os seus filhos, com os seus pais e com o seu trabalho - dará, muito provavelmente, lugar a mais estados de exaustão, a atmosferas com uma "aragem depressiva" e à emergência de mais conflitos familiares. Que, a suceder assim, farão das próximas férias de verão (elas próprias também sujeitas a algum confinamento) um espaço menos relaxado e menos "nutritivo" do que elas poderiam ser.

Por mais que os recursos de saúde mental dos pais e das famílias tenham dado provas inequívocas nesta quarentena, não se confunda resiliência com "estado de emergência parental". Os pais são saudáveis, resistiram à quarentena de uma forma surpreendente mas, a prazo, precisarão de "descomprimir".

É pois natural - e saudável, até - que, após o "desconfinamento da paciência" que muitos pais e muitos filhos vêm manifestando, haja sobressaltos nuns e noutros, num futuro próximo, de forma a que possam, finalmente, metabolizar tudo aquilo que lhes tem vindo a ser exigido. E ao que, todos eles, corresponderam de forma a concluirmos que quanto mais investirmos em saúde mental melhores pessoas, melhores pais, melhores filhos (e, já agora, melhores trabalhadores) nós teremos. TODOS vão precisar de passar por períodos em que se sentirão mais irascíveis e impulsivos. As crianças vão precisar de perceber que as regras mais "adocicadas" em relação aos brinquedos electrónicos, à televisão e a outras rotinas de todos os dias vão precisar de um "período de carência" para voltarem ao que eram. Os pais irão perder o seu equilíbrio mais vezes. As relações de casal irão "constipar-se" com outra frequência. Mas, ao pé dos sobressaltos de uma espécie de “vulto de morte”, serão essas reacções pós-confinamento que nos dão "imunidade de grupo" para que, depois de tudo isso, olhemos para outros desafios, mais fortes do que éramos, antes da quarentena.

subscreva