Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Este país não é para velhos
a vida em estado de sítio: 6

Habitualmente, eu fico escandalizado com aquilo que se diz em relação aos mais velhos. Porque, com mais ou menos subtileza, se parte do princípio que são, todos eles, amigos do Alzheimer. Que não são nem sábios nem esclarecidos. Que resvalam, com uma facilidade fora do vulgar, para a teimosia. Que se confundem. E que parecem ser, quase todos eles, rudimentares na forma como pensam ou como agem.

Habitualmente, fico sem jeito quando vejo a forma como eles são, muitas vezes, descuidados. E desconsiderados! E como - provavelmente porque não se sentem com espaço para reclamarem (porque precisam!) - aceitam muitos pequenos maus-tratos. E, a seguir, ainda assumem justificações ou, mesmo, desculpas pelas omissões de que são vítimas. Como se nada disso os tornasse mais tristes e mais desamparados. E, sobretudo, como se isso não os levasse, todos os dias, a morrer mais um bocadinho.

Acontece que, com o coronavírus, tudo piorou. E passou-se a pressupor que se tornaram rebeldes. E desafiadores. E, até, um bocadinho omnipotentes. Não medindo riscos. E expondo-se a quase todos os perigos.

Ora, eu lembro que eles já perceberam, há muito tempo, que serão, entre todos, as primeiras pessoas a morrer! E, por mais absurdo que pareça, que pôr o nariz fora da porta pode representar, aos seus olhos, uma última aragem de liberdade e de independência a que tenham direito. E que a forma como desafiam a morte e parecem, irresponsavelmente, omnipotentes diante dos perigos de contágio, só tem rival no modo como ela os atormenta, em todos os momentos. E que a maneira como, muitas vezes, quase se arrastam até um supermercado, tanto representa uma necessidade urgente como um grito de autonomia. Mas não, não se trata, de desistirmos de lhes chamar a atenção e de lutar por eles. Nem de nos “zangarmos”, um bocadinho. Nem de deixar de os proteger dos perigos. Só que, por favor, não partam do princípio que eles não pensam! Nem façam com que eles sintam que este país, mais uma vez, não é para “velhos”.

 

subscreva