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Falhanços: uma das pragas mais democráticas
Mas talvez a menos reconhecida

Para além das pragas que resultam de alguns falhanços dos ecossistemas – como a das baratas ou a dos gafanhotos – e de outras mais amigas do ano inteiro (como a dos ratos), há uma praga que, num mundo de produtos normalizados, devia ser exterminada: a praga dos falhanços.

Os falhanços são das mais democráticas pragas: não escolhem género ou idade, estatuto social ou época do ano. Desconfia-se que, como todas as pragas, também esta seja provocada por um parasita, se bem que as pesquisas relativas à sua identidade tenham... falhado. Não havendo, portanto, pesticidas contra a praga dos falhanços, vai-se registando um esforço louvável contra a forma como ela se insinua de forma corrosiva: são os filhos que acham (seja o que for que se tenha partido em nossa casa) que a culpa é sempre dos irmãos; somos nós que só não realizamos os nossos sonhos porque estamos... mal casados; são os professores que acham que, se os alunos não aprendem, a culpa é dos pais (e vice-versa); e os políticos que acham que os falhanços são sempre dos governos anteriores. Salvam-se as eternas oposições (que acham que se fossem governo nunca falhariam) e alguns economistas, que pretendem rivalizar com o Borda d'Água nas previsões (enquanto se guardam para prognósticos sobre novos falhanços... no fim do jogo). Diante de tudo isto, somos levados a supor que, por mais que o agente infestante seja mais ou menos misterioso ou desconhecido, a praga dos falhanços se desenvolva mais favoravelmente em condições onde esteja à discussão uma pitada de poder...

Diante de uma praga como esta há, também, aqueles que reconhecem, com Lavoisier, que "na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". E, receando que cada falhanço os transforme nuns falhados, reagem: ora passando dos seus falhanços de adolescentes para pais austeros e escrupulosos; ora dos seus copianços de alunos para professores que não toleram a batota. Há, ainda, aqueles que terão descoberto uma forma politicamente correcta de lidar com os falhanços, saltando de políticos para comentadores. E até eu – que, dantes, supunha que jogar à Benfica era chutar para golo o tempo todo – reconsiderei e, agora, por via desta praga, acho que devia ser proibido que os jogos tivessem tempo de compensação.

Seja como for, há um mistério para mim: se esta praga dos tempos modernos chega a todos – a ponto de os governos, porventura, passarem o tempo a falar de crise (o que será uma versão muito mais urbana, séria e clarividente daquele hit brasileiro que começava por: "é o bicho, é o bicho, vou-te devorar!...") –, porque é que são cada vez menos as pessoas que reconhecem falhar?...

Num tempo em que se taxa tudo e mais alguma coisa, era muito bem feito um imposto extraordinário sobre as grandes fortunas (dedicado, unicamente, àqueles que nunca falham). E sobre os caça-falhanços (que são aquelas pessoas que, por nunca reconhecerem os seus erros, apontam os dos outros). Porque ambos agravam em nós os sintomas desta praga! E, já agora, a Direcção-Geral da Saúde devia colocar de quarentena a nova gramática da língua portuguesa porque – nunca falha! – de cada vez que queremos usar, com propriedade, as novas designações que ela contempla, sentimo-nos sempre elevados à categoria de falhados...

Pragas à parte, que viva o mundo dos produtos normalizados porque seria uma maçada conviver com as singularidades de cada um. E com o modo como os teríamos de escutar, de cada vez que errassem, a reconhecer, com humildade, terem aberto mais uma porta para aprenderem. E com a forma como, em vez de se entreterem com escolhas fáceis – que são o caminho mais curto para ficarmos burros mais depressa –, se demorariam a escolher, por reconhecerem que quem não escolhe (bem) nunca cresce. Antes os produtos brancos! E este universo de gente transparente que nunca se cansa de repetir: limpinho, limpinho! Não fosse esta praga dos falhanços, e a vida seria bela!

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