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Há uma diferença entre sermos mais velhos ou sermos “velhinhos”
a vida em estado de sítio: 12

Há uma diferença entre as pessoas serem mais velhas ou serem "velhinhas". Desculpem mas o "inhas" tem menos de ternura do que pode parecer. É áspero ao ouvido. E, regra geral, desqualifica os mais velhos. Coloca-os ao nível de uma criança. E isso é profundamente ofensivo. Para os mais velhos. E para as crianças. 

Ora, as pessoas mais velhas são, obviamente, pessoas mais sábias. Podem não dominar as novas tecnologias. Podem ter menos poder económico e não ter o mesmo desafogo das pessoas mais novas. Podem não dar a mesma importância que elas dão aos sinais exteriores seja do que for. E não fazer os 100 metros abaixo dos 10 segundos. Mas são mais sábias! Ponto. Logo, desculpem, são tão indispensáveis como todas as outras. Leu bem: indispensáveis! Em muitíssimos aspectos, a sua sabedoria só peca por excesso de discrição. E pelo mau uso que todos fazemos dela. 

Ora, a forma com alguma indiferença com que, por vezes, se fala da morte das pessoas mais velhas com esta pandemia só se justifica porque, nas entrelinhas, passa a ideia de que morrer uma pessoa com mais de 70 ou de 80 anos “conta menos” do que morrer uma pessoa mais nova. Eu acho isso obsceno! Fala-se das pessoas mais velhas com alguma ternura, é verdade, muito raramente, como se elas fossem (desculpem a grosseria) "produtos de primeira necessidade". São "só" mais velhos. “"á viveram aquilo a que tinham direito". E outras "pérolas" assim.

Acho que a forma como as pessoas mais velhas têm morrido mais em Portugal talvez não tenha só a ver com o facto delas serem mais velhas e por terem mais quadros clínicos que complicam a sua saúde geral. Mas, também, porque a estratégia (elogiável) que existiu, a muitos níveis, sobre o coronavírus, "esqueceu" os mais velhos. Sobretudo aqueles que estão confiados a lares. Que talvez tenham sido, eles próprios, nalguns casos, um bocadinho "confiantes demais" em relação aos mais velhos que tinham aos seus cuidados. 

Agora, criar-se a ideia que fica bem a uma pessoa mais velha disponibilizar o seu ventilador para uma pessoa mais nova não é, num plano público, razoável. Compreende-se a intenção generosa com que foi dita. E isso é respeitável! Mas uma ideia como esta em "más mãos" pode criar um "populismo pandémico" que se vira contra todos.  E pode levar a que muitas pessoas, num impulso, se imaginem a passar para cima dos mais velhos mais uma responsabilidade que não é justa: a de os levar a sentirem-se a mais. A pedir quase desculpa por querem continuar a viver. Por terem direito a ser reanimados. Ou a fazê-los sentir com menos direito a terem direitos. Mesmo quando se trata de serem reanimados. E isso não é razoável. E os mais velhos - todos os mais velhos - definitivamente, não o merecem.

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