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Hooliganismo digital
A facilidade com que se agride e se insulta nas redes sociais

A forma como se agride, se insulta ou, simplesmente, se vai de presunção em presunção, sem escutar e sem ler, nas redes sociais, é muito preocupante. Para mais porque, em muitos momentos, as redes sociais parecem estar para os adultos como os desenhos animados para as crianças e os vídeo-jogos para os adolescentes. Ou seja, aquilo que, aos olhos de muitos, faz a diferença não é a forma imoderada e irresponsável como se usam os meios. Não! Aquilo que parece valer-lhes será, antes, uma espécie de discurso amigo da vitimização como se, no limite, não fosse o livre arbítrio, a vontade e as escolhas dos pais e das pessoas crescidas que estivessem em causa. Pelo contrário, todos seríamos vítimas duma “onda do mal” que contamina, transfigura e adultera pessoas saudáveis transformando-as em perigosos consumidores de adicções. E - desculpem! - nada na vida é assim. Se as crianças consomem desenhos animados (e, agora, tablets) duma forma desmedida, e os adolescentes ficam “agarrados” aos videojogos e séries, transformando-os num vício que não controlam, é porque os pais se distraem e se demitem de definir regras que façam cumprir duma forma sensata e firme. Sem que, todavia, escorreguem para uma espécie de purismo ecológico que transforme os seus filhos em abstémios de écrans. E se muitas pessoas crescidas se transfiguram, quando navegam pelo digital, não é a multidão duma rede social que as adultera. Ela, simplesmente, favorece que manifestem muitos dos seus distúrbios de personalidade que, doutra forma, estariam disfarçados por uma espécie de “pó de arroz” de civilidade que, afinal, não têm.

Em 1895, o psicólogo Gustav Le Bon escreveu um trabalho sobre a psicologia das massas em que defendia que, no meio duma multidão, e depois de excitada por ela, a personalidade de uma pessoa acabaria por ser dominada pelo comportamento colectivo, como se se deixasse contagiar e manipular, o que faria com que pessoas civilizadas se deixassem dominar pela irracionalidade, pelo instinto e pelo impulso. As multidões seriam, por outras palavras, marionetes ao serviço de quem as soubesse manipular. É claro que continuamos, como há mais de cem anos, a ser pessoas, com as características que, nessa altura já tínhamos. Só que as multidões são, hoje, muito maiores e mais indiferenciadas do que eram. Por mais que mantenham as mesmas características de enxurrada que elas não deixam de ser capazes de gerar. Aquilo que faz a diferença é que, mais de cem anos depois, somos todos pessoas mais educadas, mais informadas, mais esclarecidas e mais capazes de pensar. E, já agora, mais livres. Logo, temos nas mãos um desafio fascinante: escolhermos não ser hooligans digitais, utilizando as redes sociais para sermos pessoas melhores. Porque quanto maior é o contraditório mais esclarecido se torna o conhecimento. Com um pormenor sempre a interpelar-nos: hoje, mais do que nunca, temos a noção que educamos os nossos filhos com bons exemplos. E, mais do que nunca, sabemos que não há como atentar contra os direitos de personalidade duma pessoa ou sermos hooligans nas redes digitais e boas pessoas e bons pais, fora delas. Como se discordarmos uns dos outros ou vandalizarmo-nos uns aos outros fosse quase a mesma coisa.

As multidões confundem o pensamento com delitos de opinião. E confundem a liberdade de expressão com a má educação. Mas só se deixarmos! Porque somos todos mais inteligentes e melhores pessoas do que isso. E, já agora, os nossos filhos agradecem.

 

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