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Infernos privados
Porque é que é tão mais difícil perdoar do que se diz?

Porque é que é tão mais difícil perdoar do que se diz? Porque não é verdade que uma coisa seja perdoar e outra seja esquecer. Perdoar é esquecer! E é aí que tudo se complica.

“Pede desculpa!” é talvez das frases que mais repetimos na ânsia de educar os nossos filhos. E, sempre que eles correspondem à nossa “intimação” com um “Desculpa!…”, fechado e cabisbaixo, entendemos, intuitivamente, que isso não chega. E, aumentando o nível daquilo que reclamamos, exigimos que seja um “Desculpa!” sentido. Vindo do fundo. E, sobretudo, de olhos nos olhos. Um “Desculpa!” com os olhos que faz com que avaliemos melhor o nível do seu arrependimento. Para que - então, sim - os “libertarmos” da culpa daquilo que possam ter feito.

É claro que os pais têm toda a legitimidade de exigir que os filhos aprendam a reconhecer que aquilo que nos torna pessoas é a forma como reconhecemos a dor que alguns dos nossos actos trazem aos outros. E - mais, ainda - como essa dor os torna, contra a sua vontade, incapazes de nos amar tanto como amariam até aí. Proteger os outros das nossas maldades é, também, precavermos a renúncia discreta que ela lhes poderia trazer sempre que se trata de nos amarem. Magoar os outros será deitarmos a perder o seu amor. O que, convenhamos, está longe de ser inteligente.

Seja como for, pedir desculpa devia ser - sempre! - uma pergunta. “Desculpas?” “Desculpas?” é uma forma de nos assegurarmos que a pessoa que se magoou connosco, mais do que nos libertar da culpa que possamos sentir, encontra nas nossas maldades circunstanciais a porta para a experiência de perdão. Porque numa dor talvez não haja, unicamente, um culpado e uma vítima, mas duas pessoas que, de forma diferente, contribuíram para que ela existisse. Perdoar significa fazer coincidir dois arrependimentos numa mesma redenção. Depois de projectarmos, um sobre o outro, a culpa da dor que “aquele” acto pôs a descoberto. Por isso mesmo, os nossos “Pede desculpa!” talvez nos coloquem mais no lugar de Deus do que deviam. Porque presumem que há um culpado e alguém impoluto e omnisciente que perdoa, consoante a atitude magnânime que entenda ter. Ao contrário, perdoar é, sempre, um “milagre”. Porque encontra numa dor que se reparte uma comunhão que se descobre. Não há, pois, um perdoador e um perdoado. Mas duas pessoas que se perdoam, mutuamente, da culpa que, de forma concomitante, entendem atribuir, uma à outra.

É por isso que perdoar é esquecer. É fazer com com o mal seja “engolido” pelo bem. Não se trata de um esquecer literal. Próprio das coisas que se apagam, desaparecem ou morrem, de forma súbita, dentro de nós. Perdoar não significa que se renuncie a magoar. Não há como! (Basta que estejamos distraídos.) Perdoar acaba por ser descobrir que a bondade não é uma característica pessoal que se assume mas uma escolha mútua a que se chega. Talvez, então, não sejamos ou bons ou maus. Mas haja, antes, relações que nos fazem coincidir para uma mesma bondade. E, outras, que nos atolam e inquinam com maldades. Por mais estranho que pareça, o perdão põe a beleza no lugar do mal.

Ao contrário do que podia ser, acabamos todos por ter os nossos infernos privados. Povoados de pessoas que queríamos esquecer. Pessoas que amámos e que, de decepção em decepção, nos perguntamos, hoje, com estranheza, se terão sido, realmente, parte de nós. E de pessoas que nos mutilaram de partes preciosas de nós. E de quem, estranhamente, por vezes, nos lembramos mais do que daqueles que amamos. O inferno em que pomos os outros são as chamas que nos devoram a nós. Será mais assim. Porque não nos damos conta que a melhor forma de ficarmos presos (e quase, até, escravos) em relação a uma memória é fazer por esquecê-la.

Por exemplo, nos divórcios, a forma como se guardam ressentimentos e rancores não quer dizer que não tenha havido uma pessoa que nos tenha magoado. Ou que ela não tenha traído a confiança básica que teremos colocado à sua guarda. Nem que não tenhamos sido abalroados pela violência que sentimos nos seus actos para connosco. Eu acho que a forma como os apaixonados me perguntam: “Como é que se consegue esquecer uma pessoa?” ou os “ressentidos” reafirmam: “Descobri, subitamente, que, afinal, não conhecia “aquela” pessoa” só são possíveis porque empurramos para os nossos infernos privados pessoas que vivem dentro de nós. Sem que nos perguntemos a nós próprios: “Desculpas?…” Há uma espécie de purgatório em que muitos vivemos. Só possível quando, de tanto fazermos por nos esquecer de algumas pessoas, nos deitamos a perder. E isso nos leva a viver numa “terra de ninguém” entre o bem e o mal.

Porque é que as “pessoas boas”, mesmo quando se “obrigam” a não se esquecer de algumas coisas que alguém lhes fez, quando as magoou, têm dificuldade de se lembrar disso? E continuam tão crédulas nas relações como antes de terem sido magoadas uma primeira vez? Porque não têm memória ou, pelo contrário, porque perdoam “sem querer”? Porque perdoam sem querer. Isto é, porque, em vez de ruminarem sobre os seus ressentimentos, imaginam nos outros o perdão que entendem ser, com eles, capazes de descobrir. São essas pessoas que, melhor que todas as outras, sabem que não é verdade que uma coisa seja perdoar e outra seja esquecer. Elas são “boas” porque experimentaram nas experiências de perdão os degraus com que se ama. E é aí que tudo, subitamente, se tornou simples. E perdoar passou a ser esquecer.

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