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Não quero ir com o pai!
Um desabafo muito vulgar

Mãe, não quero ir com o pai” é um desabafo muito mais vulgar do que pode parecer entre os pais divorciados que tentam gerir o dia a dia dos seus filhos. É verdade que, em situações como estas, há mães que - pela forma como vivem cada separação de fim de semana ou pelo modo como “incendeiam” com comentários muito pouco razoáveis a relação dum filho com o pai, por exemplo - criam as condições para que um filho não queira estar com o pai. Mas estas mães não serão uma minoria muito pouco relevante entre todas as mães. E é, igualmente, verdade que há pais que - sentindo-se com a razão do seu lado ou porque reagem a tudo isto sem fazerem um pequeno esforço para se colocarem no papel do filho e no papel da mãe - criam as condições para que este desabafo não só surja como se mantenha.
Mas, regra geral, os pais e as mães são “apanhados” de surpresa por estas recusas (que, primeiro lugar, se insinuam; depois, se transformam numa espécie de ameaça; para que, finalmente, se concretizem uma primeira vez). Habitualmente, aos olhos dos pais, “surgem do nada”. Mas, acredite, nada na reacção dos nossos filhos surge “do nada”. E, por favor, não faça disso um drama. Às vezes, uma reacção destas existe porque um dos nossos filhos “cheirou” uma “tensãozinha” entre a mãe e o pai. Ou - outro exemplo - o pai parece ter uma “queda” para o outro irmão e este “não vou com o pai” é uma forma dum filho dizer, por outras palavras: “vamos lá ver se o pai é capaz de lutar por mim como deve ser”! Ou, o pai obriga-o a fazer qualquer coisa que a mãe “deixa passar”, sem grandes lutas. Ou - só mais um exemplo - terá havido, no fim de semana anterior, um desentendimento sem importância mas que a distância e o silêncio do pai transformaram numa espécie de fantasma, guardado no armário. Ou seja, o “nada” não existe. E, não sendo a relação dos pais a criar uma tensão que assusta um filho quando se trata de estar de bem com os dois, haverá sempre um pormenor que leva a que um filho tenha sempre razão. (Atenção, eu não disse que ele tenha razão para não ir com o pai! Mas terá, seguramente, razão para esperar que o “não vou com o pai” seja lido como um desabafo que quaisquer pais entendam. )
É claro que, depois do primeiro “Mãe, não quero ir com o pai”, é o bom senso e a gestão do momento que ambos os pais fazem deste desabafo que ora o ajudam a resolver ora o complica. Evidentemente que o pai fica “de rastos”. Triste. E desconsolado. E ora ceda (e talvez não devesse) ora se imponha, num impulso, para além do que devia. (E qualquer uma das “soluções” é má). E é saudável que uma mãe “convença” um filho a ir (“o pai gosta muito de ti” é muito mais comum do que devia ser), ou tente cativar o pai para algum comedimento quando ele está já no furor da dor. Ou que se “invente” uma indisposição do filho para que todos se protejam. E nenhuma destas soluções transforma estes pais noutra coisa que não seja em bons pais!
Seja como for, os pais têm que ser - os dois! - firmes e claros numa decisão como esta. “O pai gosta muito de ti” não é argumento porque já supõe que a mãe está a tentar convencer um filho a aceitar aquilo que é inegociável. E que o pai condescenda, amue ou se vá afastando à custa destes episódios também não pode ser. Porque o pai é um “bem de primeira necessidade”! E quando há quem aceite que um filho decida em querer o pai ou o não querer está a expô-lo a um perigo de decidir sobre a sua vida como se em relação a ir à escola mandassem os pais mas em relação a cuidar do pai se escorregasse para um “departamento fora-da-lei”.
É normal, ainda, que, considerando dois filhos, uma das crianças queira o pai é outra não. Não se esqueça que as crianças falam menos por palavras e mais por actos e por omissões. Logo, tente perceber o porquê deste desabafo mas não permita que os filhos tenham pai e mãe a ritmos diferentes.
Se, imagine, tudo o que lhe disse não satisfizer as suas preocupações a este respeite não se iniba. Escreva! E eu respondo.

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