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Ninguém se despede quando diz adeus
Ensinaram-me que, sempre que se morre, se vai para o Céu...

Ensinaram-me que, sempre que se morre, se vai para o Céu. Construí, por isso, a ideia dum lugar longínquo. Talvez porque um sítio tão longe assim precisasse da sensação dum imenso espaço a separá-lo de mim, que só podia ser muito para lá das nuvens, por trás de todos os planetas e das estrelas. Terá sido por isso que eu aceitei que, sempre que se morria, se ia para o Céu.

Nunca imaginei o Céu como um planeta num outro sistema solar. Talvez porque isso o tornasse pequeno. Nem como um buraco negro, por exemplo. Sobretudo porque me custava aceitar que num lugar acolhedor se vivesse às escuras. Para mim, o Céu seria um lugar-comum, embora nunca o concebesse como se fosse acidentado. Não sei porquê. Estimava-o com algum sol, reconheço. Mas nunca com cores intensas, com o bulício duma cidade, com os aromas fortes dum passeio pelo campo. Ou de voz grossa, como se fosse o mar.

Apesar de tudo o que me foram dizendo, o meu Céu não era um lugar grande. Nem bonito ou ameno. No meu Céu não havia ruas fervilhantes, com caravanas de automóveis e com pessoas, ruidosas e astutas, festejando. Ao meu Céu falta-lhe o cheiro das castanhas e da chuva. E as zaragatas. E não via que nele as pessoas chorassem no cinema ou rissem sem parar. Às pessoas do meu Céu faltavam respostas na ponta da língua. E não as imaginava, logo que entrassem num livro, galgando todas as páginas, até ao último capítulo. No meu Céu nunca imaginei ninguém que lesse, reparo agora Mas como não imagino que se chore no Céu, sinto até que lhe falta algum sofrimento para ser… Céu.

Eu gostava que no meu Céu, quando se chora por muitas razões ao mesmo tempo, para simplificar se explicasse que se chora «por nada!».

E gostava que, se se chora à partida, ao meu Céu nunca faltasse o burburinho de todas as chegadas. A corrida por um abraço. Um beijo com lágrimas. E os olhos nos olhos, à distância da respiração que se mistura, quente e ofegante. E, claro, um ramo de flores. Pelo menos. Se se morre para coisas destas pequenas e delicadas, como pode o Céu ser um lugar melhor?

Não me parece que o Céu seja um longo fim de semana, com pessoas sentadas à beira do rio, a namorar, e com crianças esparramadas pela relva, a decifrar o nariz que sempre se destaca de entre todas as formas que há nas nuvens. Às vezes, ouso imaginar a cor do Céu. Não sei porquê, mas acho que ele não é azul. Imagino o Céu em palidez. Bucólico. Opaco, até. E silencioso. E custa-me supor que, no Céu, o silêncio não seja, unicamente, como aqui, aquilo que fica quando não somos capazes de sentir o som de alguém, com quem estejamos, a ressoar em nós. Arrelia-me que, por lá, as pessoas não tropecem umas nas outras, nunca se enfureçam, não gesticulem, nem praguejem. Por quase nada. E que não se engasguem quando querem ser ternas. E que nunca digam: «és a pessoa da minha vida!» (como se nunca fosse preciso que um grande amor as guiasse para o Céu).

Eu já achava que as pessoas só deviam morrer quando não precisássemos delas. Mas se o Céu for assim – como imagino - prefiro, ainda mais, que se cheguem para mim. E que fiquem cá.

Eu sei que me enganaram por amor, mas o Céu que me ensinaram não existe. O que nunca me disseram, é que ninguém se despede quando diz adeus. Nem que ninguém se afasta quando se despede. Sempre que mente acerca do que sente, o coração retira-se, sem sequer se despedir. Não se separa de quem nos afasta. Despede-se de quem não o sente. E talvez só assim seja morrer.*

 

 

*Texto em repositório com edição especial para a sua versão digital

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