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Para que serve uma família?
Uma família é uma barafunda. E só se for assim é paz...

Não é verdade que uma família seja um presépio. E que todas as pessoas que a componham nos liguem uns aos outros com ternura. E que nos mimem com pequenos gestos e que nos façam sentir, por um bocadinho, especiais todos os dias. E que nos abracem, com força e com calor, e nos tirem o ar desse jeito gostoso, sem que, por um momento, pareçam estar atrapalhadas. E que, com delicadeza, nos aninhem no colo, quando choramos por nada, sem perguntarem porquê. E que nos chamem só para dizer que a estrela que escolhemos em segredo está de plantão para a eventualidade de a querermos cortejar. E digam «gosto de ti!» num fôlego, sem estarmos nunca preparados. E que tomem como seus os ódios que nos agarram de surpresa. E que nos puxem para um conflito sempre que os evitamos e, de mansinho, nos acomodamos num impasse. Que sejam justas mas parciais, sobretudo quando gostam de nós. E simples. Sobretudo, que sejam simples. Por mais complexas que sejam as coisas de que nos falam.

Uma família serve para nos sentirmos acompanhados por dentro. Adivinhados quando nos sentimos misteriosos. Arrebatados sempre que estamos sonolentos. E ensina-nos que perdoar é esquecer sem dar por isso. Eu acho que, para tantas coisas, uma família, para ser família, tem de ser numerosa. E só se for assim será sagrada. Nas famílias de verdade cabe a educadora que nos contava histórias e a professora que nos ralhava sempre que mordíamos a língua para pensar. E o senhor da padaria, que nos sorria, de manhã, como muitos dos nossos tios nunca o fizeram. E o Augusto, dos Jornais, que mal falava mas que, por nada que se esperasse, se comovia enquanto ria. E a D. Isaura, dos bordados, que fazia de conta que não percebia quando estávamos a mentir. E o Pai Natal e Deus, sempre que ficávamos, noite fora, à calhandrice com eles, mais vezes do que conversávamos com os nossos amigos. E eles, claro, para além de todos aqueles que sentimos serem nossos. Uma família é uma barafunda. E só se for assim é paz. E é amiga da verdade, sem a qual se é desfeliz. E puxa os sentimentos, de supetão, do fundo da alma para a superfície da pele. E desabotoa a fantasia. E é dedicada com o colo. E afeiçoa-se ao brincar. E à esperança, é claro. E a tudo o mais que quem fala dos valores da família nunca nos diz. Na verdade, a ideia de família tem sido tão enxovalhada que já não sei se gosto dela. Do que gostava – mesmo! – é que a família fosse, simplesmente, um sindicato da bondade. Mas não sei se conseguirei explicar que, só se for assim, será família. E será feliz.

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