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Pode o mimo tornar-nos infelizes?
Porquê?

São muitas as vezes em que sinto que há imensas pessoas mimadas que se sentem mal-amadas. E, reconheço, isso foi desencadeando algum mistério para mim. Sobretudo porque essas pessoas - apesar dos erros, das falhas e dos desamparos de quem as mimou - teriam mais recursos do que quaisquer outras para se sentirem amadas. Afinal, elas sabem como dar e como receber mimo. E se só isso não chega para se sentirem amadas, olhando bem, o mimo ajuda muito.

Mas, comecemos pelo princípio. Eu acho que falamos das pessoas mimadas duma forma demasiado depreciativa. Como se elas fossem mimalhas. E, por isso mesmo, não deixassem de ser ou caprichosas ou egocêntricas. E não é verdade. Se as pessoas mimadas têm um “defeito” ele passa por estarem “mal habituadas” a serem amadas. Por ficarem à espera que o mundo venha ter com elas, que “ele” adivinhe os seu mais secretos desejos sem ser preciso falar e que as coisas se resolvam “por si” (isto é, que haja uma “mão amiga” que funcione como uma “fada-madrinha” e que esteja sempre de prevenção para “desburocratizar” as azelhices com que a vida, de vez em quando, nos bate à porta). Mas se há coisa em que as pessoas mimadas se distinguem é na forma como elas são amáveis!
As pessoas mimadas - porque sabem muito bem o valor do amor, de tanto o terem experimentado - são quem mais está “apto” para amar. E quem, ao mesmo tempo, parece ser quem, muitas vezes, mais se sente mal-amado.

Porquê? Porque são sensíveis e intuitivas e, por isso mesmo, são finas na forma como lêem as pessoas, por dentro; desde aquilo que elas falam com os olhos aos seus mais pequenos gestos. Depois, porque são, intimamente, tão boas pessoas que acabam por se pôr a si próprias em causa, em primeiro lugar, como se perscrutassem a sua “culpa” naquilo que não corre bem numa relação. A seguir, porque imaginam que, tirando os seus acessos de “mau feitio”, todos “apanham” a forma subtil como se insurgem, com delicadeza e por “meias palavras”, com aquilo que as magoa, sem que seja preciso falar “demais”. Ainda, porque são tão leais na forma como se zangam que, para elas, um conflito é uma forma de se aproximarem ao melhor do “outro” e nunca a oportunidade de, com qualquer coisa de irreparável, se afastarem dele. E, finalmente, porque talvez repliquem tanto daquilo que aprenderam sobre o amor que talvez fiquem (demasiado) à espera que as coisas se resolvam por si e que quem as ame não deixe, nunca, de olhar por elas. O que não acontece. Muitas vezes. O que é quase um desconcerto. Porque se há pessoas amáveis e amantes elas são, à frente de todos, as pessoas mimadas. Então, talvez não seja o mimo quem as torna infelizes. Talvez possa ser o uso demasiado discreto que fazem dele.

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