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P&R Divórcio: conversar com um filho
Perguntas e respostas práticas sobre o divórcio

Como dar a notícia duma separação a um filho?

Se as dores de um filho já são muito difíceis de suportar por todos nós, senti-lo a sofrer por nossa causa é, seguramente, muito pior. Mas se reconhecer que o seu sofrimento surge na sequência da vontade de pormos fim à nossa infelicidade e de tentarmos ser felizes, é quase insuportável, comunicar-lhe a nossa decisão é, seguramente, quase enlouquecedor.

É claro que que as crianças nunca andam distraídas. E, por mais que os pais não discutam à sua frente, tentem ter uma relação funcional (mesmo que elas sintam que a cumplicidade entre eles tenha deixado de existir), ou façam um esforço terrível para lhes darem a entender que são uma “família feliz”, as crianças pressentem a separação dos pais muito antes deles lha comunicarem. Regra geral, quando os pais falam da sua separação com uma criança já ela a intuiu desde há muito. Habitualmente, vão dando “sinais” sobre a compreensão que fazem daquilo que a família está a passar. Ora tecem comentários (desagradáveis...) sobre as duas casas de um amigo; ou sobre a separação de um colega; ou interpelam, directamente, os pais com um “vocês vão-se separar?”, quase como quem os pretende intimidar. Por mais que também haja crianças que “fazem de distraídas” aos olhos dos pais, e reajam alimentando um discurso intenso sobre a família, falando de projectos a realizar, como se os pais tivessem uma relação perfeita e os planos familiares não parassem de se multiplicar. Enquanto isso, é habitual que os irmãos, entre si, quando são mais crescidos, conversem, interpretem os sinais dos pais e definam estratégias para alimentar essa ilusão de família junto dos pais. Enquanto tudo isso se passa, os próprios pais vão-se deixando carcomer só de imaginarem a conversa que virão a ter, vivendo-a como se ela viesse a ser um choque inesperado, um traumatismo que desorganizará os filhos para sempre ou uma  fractura que, depois de aberta, jamais se consolidará.

É normal que os pais queiram falar com os filhos acerca duma separação e, ao mesmo tempo, o evitem fazer?

Não; é saudável. Porque há um misto de culpa e de vergonha que faz com que os pais “tremam” só de pensar nesse momento. Porque há um sentimento de misericórdia perante a dor que vão “destapar”. Porque são consumidos pelo remorso de poderem estar a ser egoístas que os atormenta, diante da sensação de estarem a trazer uma infelicidade irreparável aos filhos em nome da sua própria felicidade. Porque o sentimento de fracasso os toma, de assalto, por fazerem desmoronar uma ideia de presépio que terá alimentado o crescimento dos filhos até aí, levando a que “a nossa casa” passe a ser “a casa da mãe” e “a casa do pai”, sobrando para os pais o pavor dos filhos passarem a ser um bocadinho “sem abrigo”. E porque, no fim de tudo, há sempre uma angústia sem fim de, a prazo, poderem “perder” os filhos, assim eles se revoltem contra os pais. Diante de tudo isso quem não faz por evitar, o mais que possa tudo isso? Quem não decide, hoje, que é urgente conversar com as crianças e, amanhã, descobre mais um pretexto para não o fazer?

Depois de se tomar a decisão de separação, quando devem os pais ter uma conversa sobre isso com os filhos?

Mal se sintam, inequivocamente, esclarecidos da decisão que tomaram. De preferência, a um fim de semana, de forma a que as primeiras reacções que uma criança venha a ter sejam amparadas pelos pais. Mas, seguramente, o mais depressa possível, considerando a decisão a que terão chegado. Unicamente porque, depois disso, coabitarem e dividirem tarefas, espaços, rotinas e despesas vai-se tornando, aos poucos, e para todos, irrespirável.

Não será muito precipitada uma comunicação como essa?

Se está, abertamente, assumida pelos pais, de modo algum. Sobretudo porque os pais têm amigos próximos e familiares que vão sabendo do que está para acontecer. E que, mesmo com comedimento, conversam entre si, deixando essa informação ao alcance de algumas outras crianças. Que, no meio de uma briga ou por simples solidariedade, podem arremessar ou cochichar essa notícia duma forma que faça com que ela não chegue às crianças pela mão dos pais; o que seria trágico. Ou porque, entretanto, as próprias crianças vão sentindo - dos avós, por exemplo, ou dos pais - níveis estranhos de condescendência para com algumas asneiras. Ou uma atmosfera triste e “pesada” mesmo diante de um ou outro capricho que, em circunstâncias normais, mereceriam uma repreensão clara, aumentando tudo isso uma atmosfera enigmática de tensão que não as protege.

Devem os pais escolher uma “janela de oportunidade” para uma comunicação como essa?

Não! Porque à custa de tanto tentarem encontrar uma circunstância que minimize a dor de um filho diante duma notícia como essa, correm o risco de iludir duas outras questões: a primeira, é a de que não é possível passar pelo divórcio dos pais sem dor; a segunda, é que, de tanto procurarem a “janela de oportunidade” quase perfeita para comunicarem uma notícia como essa - e uma vez que há sempre um teste, um aniversário de alguém, uma data simbólica na vizinhança do dia que terão escolhido, ou alguém que se constipa etc. - correm o risco de eternizar o impasse a que, entretanto, chegaram, havendo pais que (porque depois, há o Natal, uma viagem que já estava programada, as férias, etc.) deixam que os anos passam sem nunca a tomarem.

A conversa que se deve ter com os filhos deve exigir a presença da mãe e do pai?

Claro que sim. Por mais que um dos pais assuma as despesas da conversa e o outro se resuma a dar o seu aval aquilo que é dito.

A conversa deve ser longa ou “supersónica”?

Deve ter o tempo indispensável para que os pais, de forma bondosa, e conversando com o coração aberto, falem pelos filhos, interpretem as suas reacções e os sosseguem.

O que é que assusta mais uma criança: que os pais se separem ou que, com isso, possam perder os pais?

Perdê-los, claro. E assusta muito, também, o desconhecido que vem a seguir a uma separação. E perder as coisas boas que todos terão conseguido viver até aí.

É normal que as crianças entendam a separação num registo do género: “Se eu existo, do que é que vocês precisam mais para serem felizes?

Sim. Porque todas as crianças amadas são um bocadinho egocêntricas. E porque, muitas vezes até aí, os pais foram dando a entender que aquilo que mantinha a relação deles não seria tanto o amor que sentiam entre si próprios mas o amor que ambos dividiam por um filho.

A conversa é diferente quer a decisão de separação seja por mútuo entendimento ou se ela tiver partido de um dos pais, “contra” a vontade do outro?

Não deveria ser. Mas será assim, infelizmente. Porque no caso de um dos pais se colocar no lugar de vítima, a conversa se transforma num monólogo tenebroso, com os pais divididos entre si. Em que uma criança não só tem de “digerir” a notícia e, ao mesmo tempo, “passar por entre a chuva”… gerada por uma atmosfera explosiva que não se dilui, em que um dos pais, com um olhar que se reparte entre o ódio contido e os gestos de solicitude excessiva perante qualquer reacção de um filho, reivindica de forma velada ter mais direito aos filhos porque a decisão de os “magoar” não terá sido sua. E o outro, atropelado pela culpa e pela angústia de se transformar no “vilão” da história, receia vir a ser castigado, mais tarde, pelos próprios filhos, em função da decisão a que chegou.

Que reacções devem os pais esperar, da parte dos filhos, depois de uma conversa destas?

Reacções de choro descontrolado. Reacções de riso nervoso. Reacções de indiferença. Reacções de raiva e de rancor. Seja como for, uma primeira reacção é só uma tendência do momento. Regra geral, as crianças começam com uma destas reacções e correm as outras, saltando entre elas consoante os dias, os acontecimentos de vida e as respostas dos próprios pais.

Devem os pais fazer várias “adendas” à conversa inicial?

Sim. Não duma forma “obsessiva” mas sem nunca presumirem que com uma conversa se resolve tudo. Ou seja, as tais “adendas” devem surgir mal os pais intuam que, pelas reacções das crianças ou por alguma “poeira” que ande no ar, a sua ajuda será preciosa. Se for assim, essas “adendas” deveriam voltar a ter a presença dos dois pais.

Como é que os pais sabem que as crianças, independentemente da conversa, terão percebido a conversa dos pais?

Pelo comportamento que passem a ter dois ou três dias depois, em relação a cada um dos pais e à família, no seu todo. Se as crianças parecerem demasiadamente “adequadas”, razoavelmente “indiferentes” ou teimosamente “explosivas” estarão a “digerir” a notícia. Mesmo que nunca a abordem com os pais! Irão sempre precisar de algum tempo para que percebam que não perdem os pais. Nada que se resolva só com uma conversa.

A reacção dos irmãos a uma mesma conversa será igual?

Nunca! Na verdade, a reacção dos irmãos faz lembrar “vasos comunicantes”. Enquanto um estiver “em baixo” o outro estará expedito. Enquanto um se tomar de “ódios” o outro andará “despedaçado”. Sendo certo que um filho mais velho assumirá o papel de protector em relação a um irmão, funcionando como barreira entre ele e os pais. Logo, os custos da separação dos pais será maior para um filho mais velho.

Quanto tempo depois de uma notícia dessas levarão as crianças a reagir, favoravelmente, a ela, até darem sinais que voltarão a estar bem?

O tempo indispensável que os pais sejam capazes de levar a pôr os ritmos, as novas rotinas e as mesmas regras, de novo, no lugar.

Quanto tempo deve mediar uma conversa dessas (com adendas e tudo) e a saída de casa de um dos pais?

O mínimo tempo possível. Mesmo que aparente ser “precipitado”. Tudo é melhor do que existir um tempo de latência entre a conversa e a saída de um dos pais. Que, quando se prolonga por semanas ou por meses, transforma a vida das crianças e a dos pais num verdadeiro inferno.

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