Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Quando eu morrer, vou chorar tanto, tanto!
O desabafo de alguém muito pequenino

E foi assim que, quase do nada, o Duarte desabafou: “Quando eu morrer, vou chorar tanto, tanto!”. E eu fiquei encolhido e calado. Para além de engolir em seco, e de ficar em pausa nas suas palavras, o que é que se pode dizer a esta criança?... Que parece não perceber que, ao contrário dos cisnes, de Pablo Neruda, as pessoas não choram, quando morrem? Ou que morrem porque choram, sim, mas para dentro? E, muito menos choram, depois de morrerem, como ele parece sugerir? Ou que é um atropelamento dos diabos ter ali, bem ao pé de mim, alguém, tão pequenino, que ama de tal forma a vida que não chora pelas saudades do que não viveu mas pelo desconcerto de, um dia, se imaginar a não poder viver tudo aquilo que o amor que sente pela vida exige que viva? Como é que se explica a uma criança que para nós, os crescidos (para a maior parte de nós, vá), "não viver é o que mais cansa", como dizia Mia Couto? E que todos nós, cada um com o seu bocadinho, nos sentimos cansados, tantas vezes, à custa de tudo o que não vivemos? E que, em vez de chorarmos pelas coisas que não vivemos não choramos, simplesmente, que funciona como uma forma de termos histórias - muitas! - mas faltar-nos a quem as contar (de tal modo que vamos morrendo sem que alguém nos convoque para o orgulho de estarmos vivos)? Como é que se diz a uma criança que, ao pé dela, não percebendo o indispensável, não percebemos quase nada? Como é que lhe dizemos, simplesmente: "Duarte, que inveja, a minha!" Ou como lhe agradecemos, simplesmente? Não sei... Ou, talvez saiba afinal. Agradece-se: "Duarte… Quando eu morrer... vou chorar tanto!...". Obrigado. Obrigado; mesmo!

subscreva