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Quantas vezes nos orgulhamos?
De nós, do que vivemos, de quem amamos...

Quantas vezes nos orgulhamos de nós? Do que vivemos num instante preciso, do que fomos em vários momentos e do que queremos ser, alguma vez, num lugar qualquer, desgarrado no futuro? Dos projectos que temos em mãos e das histórias que nos guardam em si? E nos orgulhamos por termos compartilhado, para além do que imaginámos, o melhor do que vivemos? Quantas vezes nos orgulhamos por uma descoberta? Pelo resgate duma dúvida? Ou pelo sabor de magia e de mistério com que alguém nos corrigiu? E quantas mais nos orgulhamos quando alguém, no meio dum palco, procura o nosso olhar e, depois dum aceno, actua como se só o nosso coração fosse o seu público? Quantas vezes nos orgulhamos por estarmos onde, sem que ninguém nos dissesse, todos sabíamos ser ali, e só ali, o nosso lugar? Quantas vezes nos orgulhamos da coragem de conquistar, seja o que for, com o coração a gaguejar? E nos orgulhamos dos pequenos gestos com que se avantajam as convicções? Ou da forma como nunca nos cansamos de dizer «amo-te!» às pessoas que o sabem de cor? E nos orgulhamos por não sermos omissos com os pequenos desgostos, sobretudo com cada «não gostei!» com que ferimos de desalento uma ilusão? E nos orgulhamos com o jeito como dizemos «não sei», «ajuda-me» ou «desculpa!»? E com as formas como aceitamos cada perda e nos reconstruímos nela? Quantas vezes nos orgulhamos por nos reconhecermos nas palavras que dissemos e, mais do que nelas, no seu tom? E na forma como tudo o que em nós, podendo baralhar-se, se casa numa mesma integridade? E nos orgulhamos com o desassombro com que dizemos «o que é que queres da tua vida?» e, balançando, escrutinamos num desejo quem nos ajuda a desenhá-lo num caminho? Quantas vezes nos orgulhamos por cada rebelião que merece quem nos grafita o coração? E nos orgulhamos por quem nos ama? Pelo modo como nos protege e adivinha? E nos orgulhamos pelo jeito - só seu! - com que nos acarinha (com sensibilidade e com beleza, com inteligência, com bom senso e com bondade)? Quantas vezes nos orgulhamos pelos nossos pais e pelos nossos filhos? E com as pessoas com quem dividimos o passado e o futuro? Quantas vezes, depois de os imaginarmos e depois de os conhecermos, reparamos que se tornam bonitos, mesmo quando os olhamos de supetão e de fugida? E quantas vezes, ao ancorarmos neles, nos agitam com uma boa surpresa? Quantas vezes aceitamos que admirá-los é comungar o seu orgulho, tornando seu o nosso? E por não dizermos nem «eu gostava» nem «se eu quisesse», mas por sermos, simplesmente, capazes de indagar: «quem não sou eu»? E por consentir que, de vez em quando, somos ilhéus, sem mar à volta? Quantas vezes nos orgulhamos por descobrir que à liberdade nunca se chega quando se suspira, todos os dias, por fugir, mas quando se foge de dentro dum sonho para dentro de alguém? E quantas vezes somos capazes de sussurrar: «Perdi, não só, muitas pessoas. Perdi, sobretudo, inúmeras oportunidades de não as perder»? E, levantando-nos, corremos para conquistá-las, outra vez? Quantas vezes nos orgulhamos ao reconhecer que não é por se esconjurar o escuro que se enxerga a luz?

 

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