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Quem tem medo do "Lobo Mau"?
Medo sem "filmes"

Os medos são tão naturais como a sede. Aliás, são mesmo uma questão de sabedoria. Quantos mais experientes mais “medrosos” aprendemos a ser. E é à medida que os aprendemos a configurar e descobrimos como eles funcionam que acabamos a ser mais aculilantes e mais corajosos. Na verdade, as crianças corajosas não são (nunca!) aquelas que não têm medo. Mas, antes, as que, à custa de os conhecerem melhor, deixam de fugir deles. 
Os medos são, todos eles, um bocadinho irracionais. Mas nunca são estúpidos! Cada medo acaba por ser um precipitado de muitas pequenas coisas feias e más que, todas juntas, precisam duma espécie de “gota de água” para que, a seguir, passemos a ter medo “disto” ou “daquilo”.  Na verdade, o maior dos medos acaba por resultar da forma assustada ou do modo alarmado como os pais reagem com medo aos medos das crianças. E, sem querer, os multiplicam.
Os medos que as histórias trazem às crianças fazem-lhes, grande parte das vezes, bem à saúde. Dão-lhes uma personagem, um rosto ou um enredo e, por mais que não pareça, funcionam como uma espécie de “vacina”. Acabam por lhes trazer pequenas porções de medo que passam a reconhecer e com as quais aprendem a lidar levando-as a que, com isso, fiquem mais fortes. Por outras palavras, aquilo que fragiliza mais as crianças acaba por ser a forma como os pais, na sua bondade, lhes tentam evitar muitos dos seus medos. Começando por lhes poupar histórias onde, grande parte das vezes, elas vão buscar os argumentos indispensáveis com que aprendem a “pôr legendas”. Na verdade, a imaginação humana é, ela mesma, profundamente cinematográfica. Daí que quanto mais “filmes” as crianças fizerem a propósito dos seus medos mais deixam de “encarnar” as personagens assustadoras e passam, sem dar por si, a “argumentistas” dos seus próprios medos.

 

* texto escrito a propósito da minha participação no MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, no âmbito das actividades da secção Lobo Mau

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