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Sair da zona de conforto
Ou fazer pela vida, vá.

Sempre entendi que o conforto era uma coisa boa. Uma pessoa tinha um sofá grande e confortável. Um colchão onde se pudesse esparramar. Um trabalho, bem remunerado, perto de casa. Direito a que não nos peçam para “vestir a camisola”, sobretudo quando isso implica sair do trabalho perto das 10h. Fins de semana a começar à sexta, depois das 3h. Uma família bem disposta. E mais coisas assim. E que isso tudo seria a minha zona de conforto. Mas, de repente, comecei a sentir muita gente a repetir que é preciso sair da zona de conforto. E fiquei preocupado. Sem perceber se isso representava um simulacro para uma nova crise, que está para chegar, ou uma influência, com o seu quê de franciscano, que vá "constipar" o nosso estilo de vida capitalista. Mas, para tanta gente afirmar que é preciso sair da zona de conforto, é porque, afinal, a coisa é séria e o conforto não é tão recomendável como eu supunha.
Para piorar todo o meu alarme um pouco mais, passei a ouvir, como se fosse uma repreensão, que há pessoas que querem o melhor de dois mundos. Eu pensava que querer o melhor já seria bom. Mas, reconheço, querer o melhor do mundo sempre acaba por ser melhor. Se bem que o melhor dos dois mundos (contando que o segundo não seja "o outro mundo") - parecendo ter qualquer coisa de ganancioso ou, mesmo, de excêntrico - seria sempre melhor do que o melhor de um só mundo. Podia parecer exagero, claro. Mas se há tantas pessoas que, pelos vistos, têm o melhor de dois mundos, porque não democratizar esse acesso a mais pessoas e torná-los, aos dois, mais acessíveis a todos? Mas, afinal, percebi que é feio querer o melhor de dois mundos. Talvez porque isso quer dizer que se está de bem com Deus e com o diabo. Que não se escolhe. Ou que - chegada à hora de assumir um trilho, um caminho ou um "vou por ali!" - se fique à espera que a vida decida por nós. E que isso é mau!

A mim parece-me que passámos a chamar "zona de conforto" não à comodidade mas ao comodismo. E "o melhor dos dois mundos" ao oportunismo e à engonhice. É claro que fiquei muito mais em paz com o meu conforto. Mas acho graça a este lado mais urbano que todos usamos para a falta de qualidade humana. Se bem que, reconheço, haja uma certa aragem a "contrafacção" nestes termos. Parecem expressões tão bem parecidas e tão bem "embaladas" que, a determinada altura, correm o risco de se insinuarem como imagens de marca". Mas, afinal, não: fazem de nós "imitações"; e nada mais. Por outras palavras, todos achamos que é bom que se arrisque. Que se ouse. Que se escolha. Que uma pessoa se mexa. Ou que "faça pela vida". Que procure a sua "zona de desconforto", em resumo. E que cada vitória, depois de uma escolha, seja o melhor do mundo. Só não percebo porque é que, sendo assim, há uma boa parte de pessoas que pareça não sair da zona de conforto. E que se conforme, numa atmosfera de "eu estou bem!", deixando-se estar de bem com Deus e com o diabo.

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