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Salvem os avós!
Desconfinem o amor!

Isto não é bem um texto. É só um desabafo.

Mas vejam a forma como se entendeu que, para sua protecção, seria razoável que os avós se afastassem dos netos e dos filhos. E como se entendeu que um ano de isolamento e de solidão seria uma medida que se aceita. E que o direito a terem vida, a terem sol, a terem o bulício das pessoas, a terem ar e a terem vida podia esperar. Sem consequências. E sem mais nada.

Vejam há quanto tempo os avós não têm rua. Nem que não seja para que escutem mimos. Dos pequeninos. Como: “Bom dia, D. Marta!”. Ou: “Bem aparecida!” Ou: “Bons olhos a vejam!”.

Vejam há quanto tempo o único rasgo de liberdade da maioria dos avós é verem o mundo e a vida a passar debaixo da varanda ou pela janela!

Vejam há quanto tempo os avós não fazem a sopa preferida dos netos nem incorrem no pecado de lhes dar as gulodices secretas que aquecem a alma e os faz sentir que o Pai Natal não confinou. E vejam como, muito timidamente, e só de vez em quando, os avós pedem aos netos para que passem um bocadinho pela porta de casa. Sem entrarem!

Vejam este ideia, tola e pateta, que uma chamada em “FaceTime” faz do amor digital uma pílula da felicidade. Sem calorias e com pouco sal! E que os avós e os filhos e os netos não precisam de se tocar, de se cheirar e de se abraçar. De se sentir. De fazer "queixinhas" uns aos outros. Ou de se escutar.

Vejam como os avós se sentem um bocadinho abandonados e, ainda assim, tratam a neta por “minha querida!”. Ou o neto por “meu amor”. E vejam como são delicados. E elegantes. E, apesar de tão inacreditavelmente, magoados, são cuidadosos. E resistem e resistem às agruras. E são bondosos.

Vejam como somos todos exemplarmente “humanos” (é cínico, eu sei; e desculpem-me por isso). E como o teletrabalho comporta, como cuidados em relação à família, a “hora dos avós”. (A hora, leram bem). E como se institui que se os avós não têm covid são felizardos. Porque estão vivos (e isso é bom!). E que se estão, hoje, mais velhos e mais queixosos; ou se estão frágeis e mais tristes; ou se se sentem mais sós do que nunca, isso não é nada que o tempo não cure.

Vejam como, quem devia pensar as medidas que protegem a sua saúde mental, fala dos mais velhos com outra categoria e lhes chama “os nossos idosos”. Mesmo que fale para eles num tom de falsete. Como se eles não reparassem na condescendência. E, de inúmeras formas, achássemos que “os nossos idosos” não percebem como não os escutamos. Eu acho que não devemos chamar “nossos” às pessoas que, intimamente, não sentimos que façam parte de nós. E não devemos respeitar os mais velhos “só” porque são mais velhos. Acho que a falta de consideração que lhe dedicamos traduz, somente, a forma como descartamos a (sua) sabedoria. E isso é trágico. E é, assustadoramente, obscuridade. Chuva miúda. E desprezo; servido com açúcar.

Por tudo isso, desconfinem o amor! Já! E, com todos os cuidados (que para mais, as pessoas bondosas só merecem). Com máscara e com sprays. Com álcool, mas com coração e com bondade, deixem de dar os netos aos avós “só ao postigo”. Deixem de imaginar que a solução é vacinar e deixá-los sozinhos! E não tomem tudo aquilo que eles sofreram neste ano como uma “picadela de mosquito”. E, apesar de todos os desmazelos que fomos capazes de lhes dar, façam do amor aos pais e aos avós a vacina de todas as vacinas. Sem patente! E sem a ganância dos países a separar os avós ricos dos avós pobres. Mas tenham decoro! SALVEM os avós!

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