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Todos os rapazes deviam jogar à bola. E brincar com bonecas!
E com carros. E com a cozinha. E...

Foi, recentemente, publicado um relatório da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre igualdade de género. Entre muitos outros dados, ficou claro que as mulheres são, descaradamente, discriminadas em relação ao modo como são retribuídas pelo seu trabalho, agravado pelo facto de, ainda hoje, dedicarem o dobro do tempo dos homens em relação aos filhos e aos cuidados com a casa. Mesmo que, em muitas profissões diferenciadas, haja mais mulheres que homens. Em consequência disso, afirmou-se que a discriminação começa no jardim de infância. A partir do momento que as raparigas brincam mais com bonecas...

Comecemos pelo princípio: a identidade de género não é uma discriminação sexual. Não tem de ser! Por mais que, por dentro, sejam mais parecidos do que as suas diferenças possam sugerir, as raparigas e os rapazes não são iguais. Começam por ser machos e fêmeas. E têm características funcionais muito diferentes em relação ao sistema nervoso e ao modo como diversas das suas funções se manifestam. E isso traduz-se nalguns desempenhos e nalgumas diferenças de comportamento: os rapazes manifestam maior desenvolvimento cerebral nas áreas ligadas ao processamento mecânico-espacial, podendo isso explicar porque se interessam menos pela leitura e ligam mais ao movimento e são mais irrequietos, têm mais facilidade na ligação entre percepção e acção coordenada, por mais que sejam menos capazes de desempenharem varias funções ao mesmo tempo, e o seu cérebro entrar mais vezes em frequência de repouso ou em  modo “off”. Ao contrário das mulheres. Que, por sua vez, ligam melhor informação, são menos impulsivas e serão mais emotivas. Nada disto pressupõe, portanto, que comparando homens e mulheres eles sejam mais inteligentes. Por mais que nos testes tradicionais de QI eles tenham, regra geral, resultados superiores, os testes não consideram, em muitos momentos, aquilo que se convencionou chamar “inteligência emocional”, em que elas se distinguem com clareza.

A questão que se põe a seguir é se a escola discrimina homens e mulheres. Se a percentagem de sucesso educativo e a relevância dos resultados escolares  das raparigas diz alguma coisa, então ou as raparigas têm mais aptidões para a escola ou ela se desencontra de algumas características dos rapazes que talvez não acarinhe.

Depois, será importante que se tente perceber se os modelos com os quais se cresce enviesam alguns destas características. E a resposta será sim. Por mais que as funções da mãe e do pai não sejam, em muitos momentos, iguais, a forma como os papéis da mãe e do pai se constroem e o modo como dividem tarefas, ao longo da vida, ajudam muito a discriminar as características dos rapazes e das raparigas. Acentuando as diferenças inatas ou esbatendo-as. Até porque o cérebro se “molda” e se educa. E, do ponto de vista das referências do nosso crescimento, acabamos todos por ter, por dentro, muito de masculino e de feminino. Porque as referências do nosso crescimento não são, para o melhor e para o pior, sexistas.

Sendo assim, todos os rapazes deviam jogar à bola. Por tudo o que isso traz às suas características singulares e à forma como se socializam. E deviam brincar com bonecas. Porque é na forma como simbolizam a maternidade e a paternidade que as aprendem e as aprofundam. Nada disto justifica a desigualdade social e a retribuição pelo trabalho em função do género! Mas daí a dizer-se que brincar com bonecas no jardim de infância agrava o risco de pobreza acaba por ser uma afirmação escorregadia. Em primeiro lugar, porque brincar com bonecas no jardim de infância faz bem ao desenvolvimento. Das raparigas e dos rapazes. Depois, não é por não se brincar com bonecas (isto é, não é por acarinharmos leituras sexistas) que o sexismo deixa de existir. A seguir, não é por se ser mulher que se cuida, por inerência, melhor: dos filhos, da casa ou da família. Logo, o sexismo começa em casa, com os pais, e é (também) aí que ele deve ser revertido. E, finalmente, enquanto nos preocuparmos com as bonecas no jardim de infância e vivermos a divisão de tarefas e o respeito que elas merecem de forma a permitimos que as desigualdades pareçam ser inerentes ao género - na família, no trabalho, e na sociedade - podemos estar preocupados com as bonecas e com os carrinhos que acabamos a dar muito maus exemplos do que deve ser um homem e uma mulher. Começando pelo modo como, regra geral, os homens, sempre que são beneficiados de forma injusta, se calam. Coisa que, infelizmente, muitas mulheres, quando isso lhes sucede, acabam por fazer, também.

Em resumo: as raparigas e os rapazes são diferentes. Mas ver nessa desigualdade de género um argumento para considerar legítimas as desigualdades - sociais, financeiras, políticas ou outras - com base no género é outra coisa. E falar-se na desigualdade de género como se ela atentasse contra os direitos e a justiça é muito diferente. E, por estranho que pareça, pode tornar-se sexista.

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