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Vou morrer de saudades
a vida em estado de sítio: 35

Ontem, um dos meus filhos mais pequeninos estava num diálogo imaginário com os seus brinquedos. E dizia, à personagem com quem ia tendo uma interminável conversa: "Não estou nada bem. Vou morrer de saudades!" E o "diálogo" continuou e continuou.

A saudade não é um sentimento por aí além. Representa um olhar triste. Uma experiência de perda. Uma dor que tolhe e amarfanha. Que nos resigna, aos bocadinhos, a ficar pela desesperança. E a nos deixar ficar.

Eu entendo que se cante a saudade. Porque a beleza esconjura a dor. Mas já percebo mal - como se fosse a promoção de um artigo com o selo de qualidade: "o que é nacional é bom" - que se assuma a saudade como uma "imagem de marca" do que é português. Pode o nosso crescimento ser movido por desabafos do género: "Ó tempo, volta para trás"? Não! E como se pode amar a vida e, ao mesmo tempo, ter-se a sensação que o amor por ela fica, minuto a minuto, longínquo e mais distante?

Morrer de saudade é um morrer devagar. Que se faz de pequenos abandonos que se atropelam. Hoje, prescinde-se de um pequeno-nada que, ontem, dava sentido (ou cor) à nossa vida. Amanhã, deixa-se que caia um princípio precioso que nos daria garra ou ganas. E, depois de amanhã, passamos a ter saudades do que já fomos. A saudade é uma vergonha que se insinua. E que, devagarinho, convida a desistir. É um morrer sem dar por isso.

Ora, o que o meu filho mais pequenino estava a querer dizer nessa conversa imaginária, é que ninguém está bem quando se sente a carcomir pela saudade. Saudade de cheirar os irmãos e os avós. Saudade de lhes tocar, de os lambuzar e abraçar. Saudade por não poder dizer à vida, por tudo o que só o perto nos faz sentir (como o faz com a irmã mais pequenina): “Eu acho que ela me adora. Porque anda sempre atrás de mim”!

Talvez seja altura de termos direito a dizer: “Não estou nada bem!”. E de fazermos com ela aquilo que fazemos melhor: matar a saudade! E a não deixar que esse morrer silencioso se interponha entre nós e quem amamos.

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