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É urgente o amor*
É urgente que os sentimentos não se guardem fora do alcance das pessoas

1. Aquilo a que se foi chamando boa educação tem-nos estragado, devagarinho. Em primeiro lugar, a esmagadora maioria das pessoas foi mal-educada para os sentimentos.

Porque lhes disseram que há sentimentos bons e sentimentos maus, como se uns fossem toleráveis e os outros interditos. Ora, aquilo que distingue os sentimentos é mais simples. Todos os sentimentos, pareçam recomendáveis ou maus, são bons. Assim sirvam para nos aproximarmos de quem nos lê por dentro. E que só a obscuridade que se atribui ao que sentimos é uma dor que perdura. E dor sem remissão é maldade. Os sentimentos tornam-se maus quando, através deles, descobrimos que as pessoas com quem imaginávamos contar para lhes pormos legendas (e com elas encontrarmos entendimento para nós) se transformam em forças de bloqueio para o nosso coração. Todos os sentimentos que nos desencontram de quem nos ama são maus. E até o amor, se se desacerta de quem amamos, magoa. E pode, por isso, tornar-se mau.

Em segundo lugar, fomos todos mal-educados para a agressividade. 

A agressividade liga o corpo ao pensamento. É tão natural como a sede. Injecta ira ou paixão nos nossos gestos. Quando se expressa, a agressividade, liga-nos a quem nos lê. Torna-se lúdica e pró-activa. E ética. E só assim aprendemos a ser agressivos com maneiras. Mas quando se ilude expressa-se com efeitos especiais e aos impulsos. Quando os impulsos são insuflados com fantasias de violência guardam-se mais e transformam-se em rancor. Ou «ódio de estimação», se preferirem. E ele assusta. Porque nos torna amigos (assustados) da violência. 
Pelo menos nalguns períodos da nossa vida, todos somos aos bocadinhos amigos da violência. Basta que fujamos de a confiar a quem nos lê. (Na maior parte das vezes, tentamos que a violência que se sente de fugida fique, hermeticamente, fechada, dentro de nós. Fechamos o rosto, fechamos os gestos, e até o sorriso se fecha num esgar.) Viver a agressividade que se guarda não nos torna odiosos. Aliás, quando encontramos quem a legende para nós, os sentimentos maus podem ter nessa experiência, a porta com que se abre a nossa redenção.

Em terceiro lugar, fomos mal-educados para as palavras. 

As palavras engasgam-nos os gestos quando falar devia aplainar o coração. Todos os sentimentos são bons, repito, sobretudo se forem clareados por palavras. Mas se falar “em jacto” dum sentimento, inquina-o com o medo de não ser entendido, falar de “forma encriptada”, como se bastasse dizer o que sentimos mesmo que ninguém nos entenda, torna-nos amigos da solidão. Ficando por entender, os sentimentos (que são clarividência e são o que nos une) transformam-se naquilo que desliga. Isto é: sentimentos sem palavras são ressentimentos. 

E, finalmente, fomos mal-educados para a imaginação.

Porque nos recomendaram que imaginássemos antes de agir, quando isso é, muitas vezes, uma belíssima forma de complicar. E porque nos sugeriram comedimento nas fantasias como se se imaginasse de cabeça na lua. Imaginar não é agir. E, apesar disso, a vida é sempre mais fácil quando se vive do que quando se imagina.

Porque fomos mal-educados para os sentimentos, para a agressividade, para as palavras e para a imaginação, toda a cor daquilo que sentimos foi ficando pálida e tristonha. Não falamos dos sentimentos. Não dizemos «não» nem nos zangamos sempre que é preciso. E refreamos a imaginação. Estamos mal-educados para a boa educação. E, quando é assim, como se pode amar do coração até à pele? 

2. Mas também fomos mal-educados para a sexualidade. Eu sei que são precisos muitos anos para se saltar – com transparência, autenticidade e bondade – da fantasia para os gestos com sexualidade. Mas muitas pessoas passam, precipitadamente, das fantasias sexuais à parentalidade. É por isso que é urgente falar da sexualidade não tanto como o princípio do prazer mas como aquilo com que as pessoas constroem a sua infelicidade. Pelos sentimentos que guardam. E com o silêncio com que os revestem.

É por isso, e porque foram acumulando anos de mal-entendidos, que vivem a sexualidade como um “débito conjugal”. Ou sentem-na como um “imposto de valor acrescentado” duma relação conjugal. Outras, descobrem (muito tarde) que nem sempre o seu melhor amigo será um grande amor. (São essas as pessoas que se refugiam nas dificuldades no adormecer de alguns dos seus filhos. Ou, logo que vivem a sexualidade como uma experiência de infelicidade, elegem as dores de cabeça como a tal “febre de sábado à noite”. Ou adormecem, clandestinamente, todos os dias, no sofá. Para protecção de todas elas, que serão a maioria, deveríamos tomar a sexualidade como uma questão de saúde pública.)

É por isso que a sexualidade não é tão natural como a sede. Apesar do desejo ser amor à primeira vista, a paixão é amor à segunda vista e o encantamento um amor à terceira. Não é um impulso biológico que se esgota num orgasmo e que daí se confunda alívio com prazer. 
A sexualidade faz bem à saúde. Embora o erotismo não seja um lado animal que age em nós. O erotismo serve para ir ao encontro do outro. Mas só a ternura permite que se vá ao encontro do interior do outro (e do seu impacto estético na nossa vida).

A sexualidade é uma forma de conciliar – num só gesto – sensações, sentidos e sentimentos. E fazê-lo em dois ritmos que se casam numa mesma cumplicidade. E numa comunhão entre pessoas que se despem por dentro. 

A sexualidade leva-nos da superfície do corpo ao fundo da alma. Logo que se toca na pele toca-se dentro. Logo que se toca dentro o outro deixa de ser nosso. Deixa de ser outro. Passa a ser parte de nós. 

Por tudo isto:
É urgente dessexualizar a educação. Deixar de imaginar que a proximidade pega fogo e que duas pessoas, em contacto com o ar, se tornam produtos mais ou menos inflamáveis. 

É urgente inabilitar todas as formas que tomam a sexualidade como uma tecnocracia para a felicidade. Quer quando se transforma a educação sexual numa “burocracia de gestos” isolada do afecto. Quer quando se fala de disfunções sexuais à margem dos ressentimentos que se esgueiram do corpo, sempre que são silenciados.

É urgente compreender que cada abraço não é um «quero-te!» mascarado de ternura, e que os sentimentos não se devem guardar fora do alcance das pessoas.

É, também, urgente desmentir que a contenção é o topo de gama da natureza humana, ao pé da qual todo o prazer deve ser castigado. O prazer é uma forma de descobrir que a minha liberdade começa onde começa a do outro.

É urgente fantasiar. As fantasias que nos surpreendem são próprias de quem namora com a vida. É por isso que a fantasia é o “paraíso fiscal das infidelidades”. Os pensamentos põem dúvidas. Põem em dúvida quem temos connosco: comparam, ambicionam e devaneiam. Pecar por pensamentos enriquece a relação amorosa, expande a sexualidade para fora do corpo e devolve-a ao pensamento com a convicção de que só pecando se chega ao céu.

É urgente acarinhar uma cultura do prazer. Prazer não é alívio. Prazer a qualquer preço é solidão. Prazer pelo prazer masturbação. Mas se for 1 em 2, prazer é comunhão. 

É urgente desmistificar o “foram felizes para sempre”. E que se diga que uma relação, se não se cuida, não perdura amorosa, para sempre. Só as relações preciosas são frágeis. Só elas, sempre que nos decepcionam, nos matam para o amor. 

É urgente dizer que amar é sentir e palavrear duma só vez. É dizer eu e tu ao mesmo tempo. É esperar que o outro saiba sempre mais de nós do que nós próprios. É conceber a diferença entre imaginar que se voa e aprender a voar. E descobrir que um amor só é amor quando nos diz: «sente-me em ti, olha por mim, fala por nós».**

 

 

*Com gratidão a Eugénio de Andrade

**Texto em repositório com edição especial para a sua versão digital

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