Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
A pessoa dos meus sonhos
É raro quando alguém é o nosso destino. Mais raro é quando duas pessoas são o destino uma da outra

Há uma categoria de pessoas que não têm cartão de cidadão, não descontam para a Segurança Social e nem sequer pagam impostos. Na verdade, não preenchendo as características que nos levem a considerá-las na categoria dos sem-abrigo, não têm um paradeiro reconhecido, uma residência de família ou, mesmo, uma casa com número de polícia. Não cumprem um horário de trabalho, se bem que tirem férias quando muito bem entendem. Não recebem envelopes com contas e com multas. Não têm de se adequar a horários, a reuniões intermináveis e a compromissos enfadonhos. E, às vezes, chegam a não ter um nome ou um rosto, sequer. E, talvez por causa disso tudo, vivem felizes. Permanentemente felizes! É nesta categoria invejável de pessoas que habita alguém que, mais do que ter alguma coisa que nos é familiar, é “visita de casa”. Quase todos os dias. E que, duma forma simplista (e, às vezes, quase secreta) vamos chamando “a pessoa dos meus sonhos”.

“A pessoa dos meus sonhos” nem sempre é, realmente, uma pessoa. Mas ela existe! Tem um sorriso sem nuvens e uma voz clara! Olha-nos nos olhos, sem se distrair, quando falamos do desinteresse dos nossos dias. Não se atrapalha com as palavras nem engonha quando pensa por nós. Para nossa surpresa, diz-nos aquilo que nunca ninguém disse, da forma como sempre esperámos. E que, por timidez ou por medo, de tanto o desejarmos, evitámos, até, imaginar.

Que acabemos todos com um GPS a garantir-nos que chegámos ao nosso destino já se tornou banal. Que alguém - uma pessoa - seja o nosso destino já é mais raro. Agora, que duas pessoas se tornem o destino uma para a outra já foge a tudo o que é normal. Mas, vendo bem, é isso que esperamos, silenciosamente, que aconteça com “a pessoa dos meus sonhos”. Na verdade, morremos para a vida sempre que o amor morre para nós. Mas ele morre, aos poucos, sempre que “a pessoa dos meus sonhos” perde o seu ar de mistério, dá sinais que deixa de estar à nossa espera e, antes que se dê por isso, “acaba” connosco. Sem que tenha, sequer, “uma última conversa”. Sem nos deixar um bilhete. E sem dizer adeus.

subscreva