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Agora, descubro, que não conhecia "aquela pessoa"!
Quando o nosso amor se torna um estranho

"Aquela pessoa" - só para esclarecer - já terá sido a nossa "alma gémea", a nossa "cara-metade" ou o nosso "mais que tudo". Na verdade, já terá sido "o nosso amor"; em pessoa. E a pessoa a quem, intimamente, prometemos, a nós próprios, amar para sempre. Mas de quem nos fomos afastando, aos bocadinhos. Hoje, "20 centímetros". Amanhã, outros 20. A seguir, um pouco mais. E mais. E mais. Dando-nos sempre conta disso. Em todos os momentos.

Na verdade, divorciamo-nos aos bocadinhos. Por mútuo consentimento. Todos os dias. Primeiro, deixamos de admirar aquela pessoa. Depois, perde-se a certeza que ela representa um acréscimo incontornável a tudo o que nós somos. A seguir, deixa de ser uma "mais valia" e passa a ser um "encargo". Logo a seguir, transforma-se num um "ónus". Para que, finalmente, passemos a embirrar com tudo aquilo que ela representa. A forma como fala. Aquilo que diz. A forma como se ri. O modo como dorme. O seu perfume...

Todos nos divorciamos quando deixamos de falar. E, sobretudo, de discutir. Por mais que todos nós discutamos por "coisas parvas", que funcionam, para os ressentimentos que temos guardados, como "prova de vida". Uma discussão é o pretexto que nos faz ter a certeza que ainda não chegámos ao "nós nunca discutimos" que antecede o "não vale a pena falar" que termina no "não sinto nada", da indiferença.

O que se passa é que muitos casamentos são relações familiares em que dois estranhos coabitam todos os dias. Será que, quando é assim, as pessoas estranhas de quem somos familiares ficam mais estranhas depois de nos separarmos delas? Não. O mais estranho do estranho é o que se passou de estranho em nós a ponto de termos desistido de quase tudo o que fazia sentido na nossa vida. Em nome de um estranho de quem não se tinha medo. E à custa do medo de nós que, sem darmos conta, ele nos sugeria. Quase todos os dias.

"Aquela pessoa", que se tornou estranha para nós, não é bem o estranho de quem nos separámos. Mas aquela pessoa em que nós nos tornámos ao pé de si. De quem fomos familiares. E que já terá sido "o nosso amor".

É por isso que ninguém passa de familiar a estranho com um divórcio. E o "agora descubro" nunca é uma novidade em primeira mão: é uma "sensação" familiar. Silenciosamente, persistente.

É por isso que quem se separa achando que "o outro" se tornou estranho nunca perdoa. E é por isso que luta e litiga. E reclama por oportunidades. Como se dois estranhos estivessem a tempo de se transformarem num grande amor. Como se voltar atrás fosse tudo aquilo que melhor se pode esperar quando não nos perdoamos por termos insistido, tempo demais, num mesmo erro.

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