Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
As pessoas sem problemas não são bem... pessoas!
São publicidade enganosa

Aquela pessoa tem problemas!” é um comentário que serve para dividir o mundo entre os “coitadinhos” e os “despachados” . Sendo que, nós, estamos sempre do lado dos “bons”. Mas, na verdade, qualquer pessoa, seja ela qual for, está sempre “cheia de problemas”. Afinal, há forma de nos dividirmos por nós e por quem nos ama, e pelos nossos compromissos e pelos nossos filhos, e pela nosso trabalho e, também, pela família, e pelas birras e pelos melindres das pessoas que são preciosas para nós sem... problemas? E por aquilo em que a nossa vida concretiza aquilo que sonhámos e por tudo o resto que deixa aquém daquilo que mais queríamos sem nos sentirmos “cheios de problemas”? E como podemos perceber senão, como problemas, os desafios que os nossos filhos nos colocam, todos os dias, de forma muito pouco clara, considerando a nossa distracção? E o que serão, senão problemas, as dores de cabeça que eles nos trazem quando a “química” de um deles com um professor não é a melhor ou quando um dos seus colegas o toma “de ponta” e decide infernizar os seus dias de escola? E a nossa ambição, que ora é um "dia de sol" ora uma "constipação" pesada, não nos coloca problemas? E as rotinas, que nos entediam e nos agitam e que, por vezes, transformam a nossa vida numa estupidez pegada, não nos colocam problemas? E a pessoa que amamos a quem, às vezes, nos apetece pedir um “desconto” e mandar “arejar a cabeça” até que aprenda a amar-nos melhor, não nos põe problemas? E, apesar dela só fazer sentido para nós - às vezes porque não nos entende, às vezes porque poupa nos mimos, ou quando a sexualidade com ela mais parece um protocolo do que uma paixão - ela não nos enche de problemas? E o nosso corpo e as nossas contas, não nos põem problemas? Mas, afinal, a função fundamental da vida não será colocar-nos problemas e supor que seremos capazes de aprender, à medida que os formulamos e os resolvemos? E, sendo assim, é orgulho para alguém não ter problemas? Será que isso significa que é um génio ou, pelo contrário, que vive numa euforia imprópria para pessoas "decentes"?

Às vezes, sempre que achamos que “aquela” pessoa tem problemas colocamo-nos à margem deles. Apontamos-lhos. E embrulhamos o nosso comentário numa espécie de “coitada…”, cheio de sobranceria. Como se nós não os tivéssemos. Mas temos! E, da mesma forma que as pessoas “cheias de problemas” fazem, não convivêssemos com eles sem os resolver. Exatamente como fazem os nossos filhos quando, antes de lerem um enunciado dum problema, já nos estão a premiar com mais um ”Não sou capaz!”. Quem não reconhece os seus problemas desistiu de crescer.

Receio que, na verdade, as pessoas sem problemas - por mais que se definam as si próprias como “muito bem resolvidas” - não são bem pessoas; são publicidade enganosa.

subscreva