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Como é que se renasce de um divórcio para o amor?
a vida em estado de sítio: 44

De forma fria, um divórcio talvez se coloque desta maneira: não, não voltaríamos (jamais) a escolher a mesma pessoa para casar. E se voltássemos a ponderar acerca de quem queríamos para ser o pai ou a mãe dos nossos filhos não escolheríamos, seguramente, a pessoa de quem nos separámos. Sendo assim, como é que fazemos quando temos que lidar com ela, de perto ou de longe, para toda a vida, a pretexto do que temos de melhor em nós: um filho? Que, para mais, dividimos entre os dois? Melhor: como é que se reparte o melhor de nós com quem nos "trouxe" o pior de nós e representa muitos dos episódios que podem ter-se tornado o pior da nossa vida? E, já agora, como se pode amar, de forma límpida um filho que ama quem inquinou de ressentimentos e de rancor a nossa memória, sem que o nosso amor por ele não fique turvo, algumas vezes? Como é que não há-de haver bocadinhos das nossas zangas com ele por "porcariazinhas de nada" que não sejam uma válvula de escape para a amálgama de destroços que um divórcio deixou para trás? E que nos faz embirrar com coisas que, às vezes, parecem replicar e amplificar e sofisticar muitos dos defeitos de quem mais queríamos esquecer, e que azedam o tom com que lhe dizemos "Arruma o quarto"? Como é que se renasce de um divórcio para o amor? Como é que se vai da solidão à comunhão?
A mim, o que me assusta, não é tanto esta montanha-russa de pensamentos secretos que une quem passou por um divórcio e o fez com um filho. Nem o "Deus me livre" de situações delicadas que o confinamento trouxe às arestas ásperas que os pais que dividem um filho, separados, tiveram que gerir.É a forma como, vezes demais, sinto que há pais que amam (perdidamente) um filho sobre o qual vivem, agastadamente, os remorsos do pai ou da mãe que lhe ofereceram. Ou os pais que não resguardam os filhos das pequenas vinganças que guardam para o outro dos seus pais. Ou os pais - interminavelmente, bondosos - que esbarram, quase sempre, na revolta de não terem aquele filho só para si. Que talvez fosse aquilo que mais os ressarcisse de todas as dores por terem escolhido o pai ou a mãe que lhe deram "sem querer".

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