Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Não há amor sem traição?
Nim...

“Não há amor sem traição” é dos “slogans” mais comuns com os quais todos vamos convivendo. Há quem fale, também, da “tendência” para que os homens traiam mais nas vésperas das datas importantes (!). E as mulheres quando estão a “mudar de idade”: seja aos 29, aos 39, aos 49, e por aí adiante (!). Seja como for - afirma-se, com uma naturalidade desconcertante - todos traímos. Como se se deixasse no ar uma de duas opções: ou traímos, e o assumimos ou não, e pronto; ou ficamo-nos pela vontade de trair, por mais que esse “espírito de traidor”, não se dando por actos, acabará por acontecer por pensamentos ou por omissões. Talvez porque quem vai fazendo estas afirmações as faça sem grande margem para o mais pequeno contraditório, hoje, gostava de conversar convosco acerca da lealdade de trair.

Comecemos pelo mais importante: é muito difícil encontrarmos o amor da nossa vida. Sobretudo quando não fazemos por o procurar, claro. E é quase impossível casar, por dentro, para sempre, se não trabalharmos, com alma, para que isso se torne possível, todos dias. Na verdade, é mesmo muito, muito fácil divorciarmo-nos. Em suaves prestações, como acontece com todos. Porque há as crianças. As trapalhadas no trabalho. As birras de um dos nosso pais. Os dias maus dos professores dos nossos filhos. As contas a cair, evidentemente. As constipações e as dores nas costas, para quase todos. E, quando damos conta, desmazelamo-nos tanto que, a dado momento, já todos vivemos embrulhados no enfado, nas rotinas e nos “não vale a pena” que nos afastam de quem já amámos, todos os dias. Eu acho que é lindíssima a ideia de nós prometermos uns aos outros. Mas, todos nós, esquecemos as promessas quase sem dar por isso e “adormecemos em serviço”. E essa é a traição mais popular e mais transversal que todos conhecemos. É claro que, ligado com isso, escasseiam as vezes em que “o outro” repara na forma como nos “abonecamos”. Rareiam os dias em que vamos conversando com ele de nós e da nossa relação. São raríssimas os momentos em que saímos, com regularidade, e partilhamos aquilo que estamos a sentir nem que seja um restaurante que descobrimos ou quando vamos ao cinema. E, aí, traímos segunda vez. Porque não somos nem tão leais, nem tão transparentes e tão empenhados e determinados em aprofundar uma relação como devíamos. Para que, logo a seguir, a pessoa com quem dividíamos o nosso amor se vá transformando, devagarinho, só (!) na mãe ou no pai do nosso filho. Que, de mão dada com isso, nos leva a recordar (primeiro, de surpresa; depois, “porque sim”) a última pessoa com quem namorámos, antes dela. Ou nos “empurra” para que enviemos uma mensagem a alguém que nos foi mais ou menos íntimo e que terá resistido como nosso amigo. E aí traímos terceira vez. Ou seja, se formos por aqui, todos traímos, sim; muitas vezes. E, continuando por aqui - repito - a imaginação é o paraíso fiscal de todas as traições. Se isto forem pequenas traições, claro, traímos porque nos sentimos mal-amados. Ou, simplesmente, porque nos faltam mimos, colo ou, mesmo, devaneios. Seja como for, as pequenas traições são os semáforos do amor. Desafiam-nos para a lealdade. Para pormos os pontos nos “is” àquilo que sentimos. E à pessoa que foi “adormecendo connosco”, na nossa “molanguice”.

Depois, há as traições “acidentais”. Aquelas que nos devolvem ao amor. As que nos acontecem quando somos “atropelados” por uma paixão que as arrebata (e que põe em causa uma relação amorosa que se foi apagando e que, a dada altura, já não é nem “amizade colorida” nem amizade) e, quase sem darmos por isso, nos põe a viver “duas vidas”. Uma, clandestina; outra, assumida. Serão essas relações repartidas... traição? São. Não uma. Não duas. Mas três traições. Traímos quem merece a nossa confiança. Traímos a pessoa com quem nos envolvemos mas que parece nunca nos merecer sem reservas, sem clandestinidade e sem obstáculos. E traímos, ainda, a coragem (que, afinal, já não sabemos que teremos) e tudo o que reclamávamos que seriam os nossos valores. Tudo tão mesclado de culpa que não fica claro onde começa o amor e termina a culpabilidade; e vice-versa.

E, depois, há os traidores compulsivos. (Aqueles que não toleram nem compreendem as nossas pequenas traições. E que acreditam que somos todos traidores; iguais a eles.) Que para justificarem o mal que nos fizeram, nos dizem: “Atenção, que nada daquilo que tu imaginas é aquilo que parece”. E, quando, finalmente, assumem mais uma traição, reclamam o direito de ser nossos amigos. E nos “mimam” com uma assumpção de culpa sem uma ponta de culpabilidade. Assim: “Tu sabes sabes que eu não presto”. E rematam com: “Tu mereces melhor!”. E talvez seja aí que nos terão falado, pela primeira vez, com verdade.

“Não há amor sem traição”? Mais ou menos. Chegados aqui, se falarmos das “pequenas traições” ou das traições acidentais, talvez seja a lealdade de trair. Aquelas pequenas culpas que nos tornam pessoas melhores. E que nos ajudam a amar. Mas se falarmos das traições compulsivas, não. Claro que não!

subscreva