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O ciúme faz bem ao amor
Mas não exageremos...

Não há amor sem ciúme. E quem disser o contrário nunca amou. O amor é uma dádiva; é verdade. E é um turbilhão de gestos de bondade. E - mais, ainda - “a minha vida toda” num só rosto. Por isso mesmo, o amor faz com que - de forma trapalhona e terna, dum jeito voraz e, mesmo, fulgurante - tudo o que é nosso volte a ser parte de nós. Mas se o amor é assim - improvável! - e se nos apanha sempre de surpresa; se nos enche de luz e nos revolve; se nos devolve ao “nós” e, só por isso, nos inventa, com que desapego se aceita que quem se ama não seja nosso? Só nosso! Do seu passado até “depois de sempre”? Basta a quem ama que o seu amor seja, simplesmente, parte de si?  

Não há amor sem ciúme. E quem disser o contrário nunca amou. O ciúme é um conselho de sabedoria. Insinua-se ao ouvido. Convida a que nunca se perca de vista tudo aquilo que nos falta para merecermos o amor. E desafia para que nunca esmoreça tudo aquilo que faz de nós irreversíveis e singulares. E irrepetíveis, até. E leva a descobrir que só mesmo mais que “o melhor de nós” fará que quem se ama nos ame assim, também. O ciúme é amigo do amor. Torna-o mais incansável. Menos preguiçoso. Mais humilde. Mais escutador. Mais iluminante. E mais amor. Com um senão: sem confiança não há ciúme. E sem ciúme não há amor.

Mas há uma linha em que o ciúme nos definha e mortifica. Quando - de tanto querermos uma pessoa, unicamente, para nós - o nosso amor lhe faz doer. E, em vez dum entusiasmo que a comova, o amor a afasta. De todos; e até de si. E, em vez de transbordar para lá de tudo aquilo em que acredita, ela se assusta. E foge. E vive a medo. Quando o ciúme engelha e amarfanha não é ciúme. Nem, sequer, aquilo que o move é o amor. É, antes, um rancor que pena por encontrar a alma gémea. O ódio guardado por alguém que, não dando nem sequer o melhor que havia em si, se vinga de quem, supostamente, amou. Roubando-a de si. E, com inveja, sequestrando-a, para o amor. Por conta daquilo que nunca recebeu.

Não há amor sem ciúme! Mas se há quem se confunda e ao amor chame ciúme, viverá perseguido por aquilo que não deu. E, por mais que queira amar, o amor será um desencontro. Um amasso. Uma dia de sol a quem parece ter faltado, quase sempre, uma janela.

 

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