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O descuido
Do amor à solidão assistida

Eu acho que escutar é o princípio da tolerância e a humildade o lugar onde começa a sabedoria. Ficamos bonitos sempre que escutamos. Na verdade, só assim seremos o melhor do mundo para alguém. Mas, às vezes, as pessoas, ao nosso lado, estão repartidas por mil coisas, todas a concorrer umas com as outras. E não enviam uma mensagem de bom dia, como é costume, nem nos perguntam como foi a consulta. Por vezes, as pessoas ao pé de nós são descuidadas. Acontece! Mas, por mais que tudo pareça que nos passa ao lado, nós registamos. E, de descuido em descuido (que dói sempre um bocadinho), chega-se a um sentimento de desamparo. E, de desamparo em desamparo, hoje desistimos de um aspecto precioso para nós. E, depois, de outro. E de outro. E, quando damos conta, não somos nós. Funcionamos! Mas fica a saudade do que fomos. Por outras palavras: descuidos acumulados geram desamparo; e desamparos cumulativos a depressão.
[Um adolescente - a propósito dos poucos dias em que o pai decide acordá-lo - descreveu este clima de desconhecimento mútuo e de abandonos cumulativos duma forma brilhante. Assim: -“Sempre que o meu pai me abre a persiana, eu fico às escuras”].
Ou seja. quando estamos tristes, choramos; quando nos sentimos deprimidos não temos força nem para chorar. (Perante um descuido ou um desamparo choramos. Perante vários, que se acumulam, perdemos a força para chorar). São inúmeras as circunstâncias em que estamos tristes e não damos por isso. Por mais que pareça que somos capazes de tolerar quase tudo. Só que nessas alturas, vamos ficando indiferentes (o termo em si tem graça: in-diferentes. Isto é: estamos tão entrincheirados na dor que ela se transforma na banalidade com que definha tudo o que temos de singular.) O mais trágico é que há relações que nos estragam e nos tornam assim. Terão sido, porventura amorosas. E te-lo-ão deixado de ser. Serão, muitas, uma solidão assistida.

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