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Os amadores
Essa espécie que, a dois, viaja 380 000 km em poucos segundos, até à lua

Desde há mais ou menos 2,5 milhões de anos, a Terra foi sendo povoada por uma categoria de animais razoavelmente semelhantes aos seres humanos modernos, capazes de dividir tarefas, capazes da amizade, de brincar e de amar, e capazes de competir pelo poder, como o fazem os elefantes ou os chimpanzés, por exemplo. Sem muito que os distinguisse de outras espécies, para além de terem a capacidade de acasalar entre si e darem origem a crias férteis, a estes seres humanos originários foi-se chamando Australopithecus, ou macaco do Sul, que se vieram a diversificar e se tornaram mais complexos, espalhando-se pelo mundo e evoluindo em diversas direcções. 

Certamente em consequência da sua fragilidade estrutural - sobretudo se a compararmos com competências de outras espécies e a sua respectiva autonomia - as crias humanas foram manifestando necessidade de cuidados maternos muito mais prolongados. E a uma atenção mais dedicada, manifestada numa intuição que, em função da extrema complexidade dos bebés humanos, levou a que se tivesse desenvolvido uma competência materna - ímpar, quando comparada com as dos outros animais - que faz com que se fale de um “sexto sentido”, capaz de levar a que se associem pormenores quase insignificantes e sons mais ou menos inaudíveis a respostas prontas, com uma capacidade tão invulgar que quase parecem resultado de um “instinto de adivinhar” a que muitos chamam amor. Na verdade, o amor não é, ao contrário da família, uma característica quase genética desta espécie. Resulta duma transformação que esta categoria de animais foi capaz de desenvolver ao longo da Evolução, que a terá levado a transformar essa dança íntima entre duas pessoas que se lêem, por dentro, num vínculo.

O amor tornou-se, portanto, a par da construção de histórias (para as quais estes animais estão amplamente dotados), numa característica ímpar e absolutamente singular que distingue esta categoria de animais de todas as outras. Não só porque esta espécie tem competências cognitivas inimitáveis mas porque o acesso à palavra faz com que, a par de um conjunto de gestos que partilha com outros animais - como a curiosidade, a ternura, a capacidade para cuidar e proteger, a solidariedade desinteressada, o ciúme, etc. - tenham transformado uma manifestação inata de fragilidade num gesto sublime que os expande, complementa e completa. Aliás, contrariando as manifestações de acasalamento das outras espécies - todas elas ao serviço da reprodução - nesta espécie o amor não se caracteriza por manifestações sazonais ou danças rituais. Por mais que quem ame se olhe de frente, emane uma luz fora do vulgar dos seus olhos (muito abertos), e chegue a sorrir com eles. Há quem diga, mesmo, que o amor torna estes animais serenos e guerreiros, ao mesmo tempo, e clarividentes, criativos e, ainda, mais curiosos, mais bondosos e mais capazes de manifestações estéticas (que, a par, das histórias e do amor, serão as três grandes características que os distinguem, dentro da taxonomia de todos os animais).

É verdade que os humanos são animais que, sempre que se amam, se tornam imprescindíveis uns para os outros, por mais que a ideia de acasalarem não esgote tudo aquilo que o amor lhes parece trazer. Nessas alturas, olham-se nos olhos, em permanência, e são capazes de algumas manifestações, estranhas aos outros animais, como acreditarem em transmissão de pensamentos, em manifestações telepáticas, sendo capazes de experiências ultra-sensoriais que os leva a sentirem-se, mutuamente, mesmo que estejam a muitos quilómetros de distância. Aliás, ao contrário do bobo escuro, parente do albatroz, capaz de voar 70 000 Km em, apenas, 200 dias, e o pelicano, que economiza 70% da energia quando migra, curiosamente, os animais desta espécie, sempre que amam, voam em par 380 000 km (tantos quantos separam a Terra da Lua) numa questão de segundos, chegando, por vezes, a ir à Lua e a voltarem por diversas vezes, ao longo de um dia.

Misteriosamente - talvez devido a uma vida mais solitária, mais omnipotente e menos humilde - são cada vez menos os exemplares desta espécie capazes de ser amadores. De amarem com convicção! Com tenacidade. Com fé e com alma. Como se - para além dos sinais exteriores com que seduzem (como os pavões) ou das cores que exibem (como as araras, que falam) - fossem ficando numa hibernação característica de que só os humanos são capazes. Que, ao contrário dos esquilos ou das marmotas, que “adormecem”, leva a que cumpram rituais diários, se desdobrem em compromissos e cuidem das crias, mas a pouco mais que tenha a ver com as histórias, com a palavra ou com a beleza, que os distingue. Aliás, de tal forma esta aparente “mutação” se está a tornar vincada, que a competência para amar dos humanos parece ter entrado em decadência, estando, perigosamente, em vias de extinção. O que, do ponto de vista da biologia, só pode ser estranho. Afinal, não foi o amor que os tornou dominantes, capazes de mudar o mundo e ímpares na forma como vão do sonho ao futuro, sempre que se ligam, intimamente, a quem lhes clarifica tudo aquilo que sentem?

Seja como for, ao contrário das aves raras, por exemplo, os exemplares dos humanos amadores não devem ser admirados ao longe, através de lentes telescópicas, por exemplo. Nem com método ou silêncio. Exigem proximidade. E um contacto corporal, quase contagiante. Porque a sua imensa vida parece resgatar aqueles que hibernam, por mais que funcionem, e os que viajam e migram, sem que, contudo, cheguem à Lua.

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