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Porque é que o amor nos dá azar?
A resposta, não sendo bonita, talvez possa ser...

Se nunca tentamos o suficiente a ponto de nos sentimos com legitimidade para dizermos que o amor nos “dá azar”, porque é que, em relação a ele, passamos a vida a fazermo-nos de vítimas? A resposta, podendo não ser bonita, talvez possa ser esta: em relação ao amor somos, muito provavelmente, uns grandessíssimos medricas. 

Tanto é assim que aquilo que dizemos uns aos outros sobre o amor dá que pensar. Às vezes, reconhecemos que talvez nos falte “a força da vontade” para lutar por ele. Às vezes, parece que nunca temos “aquilo que é preciso” para gostarem de nós. E - mais vezes, ainda - alimentamos uma ideia (um bocadinho “tirem-me daqui”) de que teríamos de ser “especiais” para merecermos o amor a que temos direito. Porque é que disfarçamos os nossos medos com “fórmulas” mais ou menos habilidosas? Por outras palavras: porque é que lutamos tão pouco pelas coisas em que acreditamos? Talvez porque, por medo, acreditemos menos nelas do que possa parecer. 

Serão, então, os nossos pais que, pelos exemplos de amor que não nos deram, nos terão “amachucado a convicção” de que o amor pode ser muitíssimo mais do que uma relação, simplesmente, fraterna? Em parte, acho que sim. Porque repetimos mais vezes os seus erros do que desejaríamos. E, já agora, porque nos custa muito imaginar que podemos ser melhores que eles e que havemos de conseguir conquistar aquilo em que eles possam ter ficado mais ou menos “a meio”.

Mas, apesar dos “maus exemplos” de amor com que crescemos, talvez nos tenhamos sentido todos amados a ponto de, “lá no fundo”, não deixarmos de acreditar que o amor acontece. Seja como for, se o “lá no fundo” já de si me incomoda (porque equipara o amor a uma exploração mineira ou a uma espécie de “salto no escuro”, maior do que devia), o “acontece” preocupa-me muito mais. Porque introduz uma atmosfera do género “vamos dar tempo ao tempo” que nos leva a nunca guardar para amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã. A verdade é que, em relação ao amor, parecemos ter todos uma posição muito passiva. Muito dada à “preguiça”. E muito assustada. E desfazemo-nos em desculpas. Mas, no amor, aquilo que nos trai é o medo. É por medo que passamos a vida a fazer de sapo. À espera que alguém, sem termos feito quase nada para o merecermos, repare em nós, nos pespegue uma grande beijoca e... zás: nos liberte dum feitiço e nos transforme no “príncipe” que teremos, mais ou menos cativo, dentro de nós. Ora, que todos somos muito mais bonitos do que a “maquilhagem” que pomos deixa supor, eu sei que é verdade. Mas que cheguemos ao amor timidamente e numa atitude meio-encolhida, sem nunca lutarmos por ele com garra e com paixão, é que me merece as maiores dúvidas. 

É verdade que os nossos pais nos deram, porventura, mais “maus exemplos” de amor do que supunham. Mas é, também, verdade que, com falhanços e tudo, nos souberam amar. Sendo assim, aquilo que nos dá azar ao amor não sem nem os maus exemplos nem o medo, simplesmente. Nem aquilo que nos falta saber sobre o amor. (Afinal, por muito que nos falte muito para sabermos todos sabemos que não é possível amar sem medo, sem fé e sem dor. Que a felicidade exige luta, determinação e muito trabalho. E - quase parece mal dizer assim - exige capacidade de sofrimento. Que aquilo que, hoje, nos faz feliz, amanhã não está em saldo. E que imaginar o amor e lutar por ele são coisas diferentes.) Aquilo que, no amor, nos dá azar é a falta de humildade. Essa ideia de que o medo se mascara com a vaidade. Como se com medo nos tornássemos mais fracos. Quando é a coragem de o vivermos que nos faz fortes. E a humildade de o repartirmos quem mais o leva de vencida.

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