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Quem ama cuida
Não é por amarmos, algures, nalgum momento, que amamos para sempre

Amar supõe gestos sem crivo. Considerando que se escancarara tudo aquilo que se sente. E é por isso que, sempre que se ama, dar é mais precioso (e mais gostoso) que receber. E cuidar do nosso amor será - ao mesmo tempo, e olhando só para aquilo que sentimos - aconchegar, acarinhar e alindar. E é abrir e abluir. E abalar. E viver na “vertigem” de cada momento se costurar sem memória, sem imaginação e sem desejo. Amar supõe um tu que é eu. Um dois num só. O sempre antes do ontem. E uma eternidade que, segundo após segundo, nos arrebata e que perdura. E é claro que, por tudo isto, quem ama cuida; sim. E que cuidar é a prova de vida do amor.

Se amar é cuidar, quem não cuida descuida. Logo, quem descuida não ama. Desama! Que é assim uma forma de fazer desmoronar, devagarinho, uma a uma, todas as circunstâncias em que nos sentimos únicos e amáveis aos olhos do nosso amor.

Na verdade, não é por amarmos, algures, nalgum momento, que amamos para sempre. Guardamos para sempre o amor desse momento, como se não houvesse nem tempo nem distância. Guardamos, também, a legítima expectativa de esperar que quem nos amou (e cuidou!) assim não possa nunca não fazer nem menos nem diferente. Mas amar não é guardar. É abrir. E é dar. É galgar. E renascer. Logo, a memória do amor sinaliza o quanto tarda em encontrarmos quem resgate o nosso amor e o ressuscite. Por isso mesmo, amar uma vez não é amar para sempre. Amar uma vez é esperar, para sempre, que o amor que se experimenta viva, de todas as vezes, como da primeira vez.

Por tudo isto, são mais as pessoas que, mesmo que reafirmem que nos amam, descuidam e desamam. Sem que reparem que, primeiro, se descuida. Depois, de todos os descuidos que se juntam uns aos outros, se desampare. Para que, a seguir, de tantos que são os desamparos, se desame. E nos leve a que nos resignemos, simplesmente. E que isso nos deprima. Pela força de nos roubar a esperança de se deixar de acreditar. A resignação (de não ter direito a esperar pelo amor) é a dor dos descuidados. A depressão a dor dos mal-amados.

Quem ama cuida; sim. E sempre que silenciamos os descuidos e convivemos com os desamparos, como se não existisse mais para desejar, estamos a aceitar que nos maltratem. Aos olhos de todos. Como se quem nos “bate” assim, só o fizesse porque (diz) que nos ama. E, perversamente, esperasse que quanto mais descuida, (e mais nos leva a sentir, envergonhadamente, incapazes de assumir o quanto nos faz doer) nos fizesse cúmplices, pelo silêncio, com a forma como nos desama. Levando-nos, assim, pelo silêncio, a fazer de conta que, também nós, o amamos a si.

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