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Só as pessoas que choram são capazes de ser felizes
De serem mais verdadeiras

Gosto das pessoas que choram. Sobretudo daquelas que choram por um amor. Porque chorar é um sinal de força, de seriedade e de convicção. Porque é a prova de que não se desmancham com a sua dor. Nem a vivem como uma humilhação que não mereciam. Acontece que eu acho que só as pessoas que choram são capazes de ser felizes. Porque não enovelam a dor. Porque não a embotam. Porque sabem, afinal, que quem manifesta o sofrimento o desconfunde de tudo o mais que faz parte de si.

A mim parece-me que vivemos numa espécie de bolha de euforia como se estarmos tristes e sermos deprimidos fosse quase a mesma coisa. E não é mesmo nada assim. Só as pessoas que são capazes de estar tristes não se deprimem. A tristeza é o melhor anti-depressivo do mundo. Mas parece-me que se confunde tanto euforia (que é um sentimento solitário de triunfo sobre a dor) com alegria (que é uma experiência de encontro que a confronta e a transforma). Vendo bem, talvez vivamos num mundo muito amigo da mania onde a tristeza parece ser sinónimo de fraqueza e de depressão, e onde os momentos de tristeza não encontram nem espaço, nem relações, nem “autorização” para partilhas.

O contrário da tristeza não é a felicidade, é bom que se lembre. Mas a vivacidade. Essa ideia de que estamos felizes quando não estamos tristes não é verdade. O paraíso não é um sítio sem dor. É um lugar onde a dor nunca nos leva senão à sabedoria.

A tristeza é uma dor que se impõe. Unicamente porque precisa de ser percebida e de se pensar. Quando a tristeza não se divide, não se partilha e não se pensa transforma-se em depressão. Porque traz consigo a revelação de que as pessoas preciosas (ou, simplesmente, importantes) para nós só nos aceitam sem qualquer nódoa de dor. Às vezes, fazem-no por embaraço; é verdade. Às vezes, por distração; já é mais grave. Mas o que dói mais na dor não é a dor, em si. É a forma como ela nos desengana a propósito das pessoas fundamentais da nossa vida. E quando ela traz, pela forma como não a acolhem, uma experiência agreste e ácida de desamparo. Sobretudo quando, no topo dessas pessoas, está o nosso amor. Omisso. Atabalhoado. Ou indiferente à nossa tristeza. Decepcionante, portanto.

A grande dificuldade dum amor é saber se "aguenta" as nossas lágrimas e nos permite estar tristes. Simplesmente. Talvez a maior prova de um amor seja a tristeza. A forma como ele convive com a tristeza, a acolhe e a acarinha. E nos resgata dela. Como é que alguém tão importante e tão redentor para nós nos pode, ao mesmo tempo, afastar daquilo que sentimos importante?

A tristeza será uma adversidade. Eu acho que sim. Mas, na maioria das vezes (sempre que aquilo que as move não é o medo que ela nos traz) as pessoas ficam mais bonitas quando ficam tristes. Ficam mais transparentes. Encavalitam-se menos nas suas defesas. E parecem ter restaurado, quase sem querer, a sua capacidade de apreciar. E a estima. O sofrimento é a prova de que não somos omnipotentes. E é a marca de água que nos permite usar os nossos fracassos para sermos melhores.

Só as pessoas que choram são capazes de ser felizes!  Menos quando, à custa de fugirmos, vivemos ausentes de nós.

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