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Temos de conversar
As coisas não estão bem...

Há uma diferença muito grande entre gostar de viver, gostar-se da vida que se tem e estar-se apaixonado por ela. Na verdade, serão degraus diferentes da nossa relação com a vida. Todos queremos gostar muito da vida que temos, não é? Mas na verdade, não gostamos. Ou, talvez melhor, serão muitas as circunstâncias em que gostamos de estar vivos, gostamos mesmo muito da vida... mas não gostamos tanto assim da vida que, entretanto, construímos.

Por mais que ninguém procure uma relação idílica com ela, pergunto-me como é que é possível gostarmos da vida sem que, todavia, gostemos da vida que temos. Não é. Fica-se, portanto,  numa espécie de “terra de ninguém” entre o modo como amamos a vida enquanto não nos sentimos por aí além amados por ela. O que nos leva a sermos capazes de “funcionar”. A engendrarmos sonhos. E a darmos o nosso jeito, muito próprio, a alguns projectos. Enquanto, no entretanto, a esperança de termos a nossa vida com “a nossa cara” se vai esboroando, quase sem darmos por isso. Digamos que a nossa relação com a vida - por nossa causa, claro - é, muitas vezes, uma “relação difícil”.

Porque é que as boas pessoas tomam, aos bocadinhos, más decisões (e se vão “constipando” e “encolhendo” com as escolhas que fazem)? Porque, bem vistas as coisas, exercemos de menos o nosso dever de escolha (é um dever mais do que um direito, não é?). Eu acho que, quase sem darmos por isso, todos percebemos que escolher é uma forma de reconhecermos que não podemos ter tudo. E, mesmo quando escolhemos, são imensas as situações em que nos sentimos muito presos ao medo mais democrático de todas as boas pessoas: “tenho medo de estar a ser egoísta”. Que nos tolhe e amedronta. Sobretudo quando se trata de dizermos a quem nos ama: “Atenção! Pode desmoronar tudo à minha volta menos o nosso amor!...”

Seja como for, se há muitas escolhas que, quando as tomámos, tinham a nossa cara, há escolhas que, com o tempo, tornam a nossa vida mais cinzentona. Se há escolhas que nos levam “às nuvens”, há escolhas que não só nos fazem descer das nuvens como nos trazem, sobretudo... céus cinzentos. E aprofundam a clivagem que muitos sentimos entre gostarmos de estar vivos e não morrermos de amor pela vida que temos.

Até aqui, tudo bem. Acontece-nos a todos. Porque quase nunca chegamos para “as encomendas”. E porque, por causa de todos os apelos com que lidamos todos os dias, mal reparamos e as coisas que se passam entre nós e a pessoa com quem dividimos a vida deixam de ser uma paixão pegada. Há muito deixaram de ser “amor de perdição”. E, no entretanto, estarão, algures, entre uma “amizade colorida” e um “centro de custos”. Por outras palavras, coabita-se. Partilha-se (muitas vezes, mal) as responsabilidades com os filhos. Deixa-se se dividir o gosto por uma série de televisão. Começa-se a coleccionar embirrações. E, quando se dá por isso, passa-se a ter saudades daquilo que se viveu. Com “aquela pessoa”!

Nada disto nos será completamente estranho, a todos. Pelo menos, nalguns momentos da nossa vida. O que não entendo, mesmo, é porque é que - quando já estamos no patamar em que não apanhamos a roupa suja que a pessoa com quem vivemos esqueceu em cima da cama (porque não somos suas “sopeiras”) ou já alimentamos uma espécie de “ódio de estimação” pelo perfume que ela decidiu passar a usar - demoramos muito a conversar sobre tudo isto. Com uma ingenuidade típica das boas pessoas, supomos que aquilo que nos separa se resolve com uma única conversa. Iludimos, quase com habilidade, o reconhecimento que quem nos ama se deve transformar, unicamente, porque nós existimos; em nome daquilo que já terá sido o nosso amor. E, muito pior, começamos uma conversa dura de forma macia. A dizer, com delicadeza: “Temos de conversar… As coisas não estão bem”.

“As coisas não estão bem”?... “As coisas não estão bem” não é bem a mesma coisa que assumirmos que “estão mal”. Ou que “a nossa relação está por um fio”. Certo?... Reconheço que quando assumimos, ao fim de mil hesitações, que “Temos que conversar” estaremos a ser prudentes. E bondosos, até. Reconheço que todos já teremos utilizado uma forma delicada de assumirmos a nossa decepção. Mas não vale a pena dizermos à pessoa de quem mais depende a diferença que há entre o amor que temos pela vida e a forma como não gostamos dela, de forma clara, que a nossa relação está “por um fio”?

Porque é que somos todos demasiado delicados quando nos sentimos magoadíssimos por quem amamos? Porque é que não somos claros, transparentes e leais? Porque talvez acabemos por não acreditar que passe por essa pessoa a resolução do dilema que temos entre a forma como gostamos de estar vivos enquanto, no entretanto, deixámos de gostar de nós na vida que vivemos.

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