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«Tu mereces melhor!»
Há relações que parecem intoxicar-nos

Imagine que se apaixona. Acontece! E que, como todas as pessoas, se engasga algumas vezes, e o seu coração é tomado por receios. De forma clandestina, para que ninguém pense o pior de si, compara essa pessoa, em todos os pequenos pormenores, com todas as outras que têm um lugar no seu coração (mesmo contra a sua vontade). Talvez por causa disso, hesita. Depois, recua. Mas, duma forma quase surpreendente, atendendo às suas reservas, quando deu por isso, o amor tomou conta de si. E, aí, envolve-se. Dá-se. Dedica-se. E cuida. E, à medida que procura estar mais com essa pessoa, até porque em muitos aspectos lhe sabe bem conversarem e “estarem”, ela parece saltitar na forma como se dá. Em muitos momentos, é afectuosa, sedutora e cativante. Mas, por vezes, parece haver uma “nuvem” que a envolve. Nesses momentos, ergue um muro de silêncio e, nos melhores dias, murmura, unicamente. E cria “mau ambiente”, claro. Sobretudo quando essa pessoa sente que não tem o protagonismo e acredita que divide a sua atenção com os seus amigos com alguém especial da sua família. E, sem aviso, afasta-se. Primeiro, duma forma subtil. Às vezes, parece que ganha dentro de si a sensação de que essa pessoa a estará a evitar. De súbito, há momentos em que deixa de lhe atender o telefone. “Evapora-se”. “Sai de circulação”, por outras palavras. E, quase tão misteriosamente como desapareceu, dias depois - já o impacto que teve dentro de si estará mais diluído e a fúria e a dor que sente estarão mais macias… ter-se-á resignado a não ter resposta às dezenas de telefonemas e de mensagens que lhe deixou - essa pessoa envia-lhe uma mensagem ternurenta. Do género: “Estás aí?…”. Se o seu silêncio, magoado, permanecer, não tardará uma outra: “Gosto de ti…”. É claro que um “amo-te” deste calibre, em “português suave”, não virará do avesso o seu coração. Antes merece da sua parte um comentário cheio de arestas: “É preciso ter lata!…”. Escuso de lhe dizer que não tardará muito para que, mal dê por isso, ter essa pessoa a tocar-lhe à porta “desfeita em lágrimas”; “despedaçada”; num choro desamparado, convulsivo e angustiante. A seguir, não sei se se recorda, a sua frieza inicial gradualmente irá esbater-se e surge, vinda do mais fundo de si, a sua bondade. Uma espécie de “lado maternal” que se adensa, logo que essa pessoa deita a cabeça no seu colo e espera que lhe afague o cabelo. E volta, contra tudo aquilo que sempre garantiu, “à casa da partida”. Uma vez. Outra vez. E mais outra. E outra, ainda. De cada uma delas consigo a querer afastar-se e... essa pessoa a não deixar. “Nem que seja quando formos velhinhos, ainda vamos acabar os dois, juntinhos” é uma frase feita, claro, que – releve-se a rima - tem algum êxito nestas pessoas. Entretanto, até que tome a iniciativa de acabar com essa relação, já terão existido inúmeros incidentes (com as respectivas discussões por coisas “estúpidas”, como não podia deixar de ser) em que terá ficado com a sensação que essa pessoa parece andar à “caça” de um pretexto para que se separem. E se, depois, de evocar o seu “mau feitio”, a forma como precisa do “seu espaço”, ou depois de reclamar contra o seu jeito “controlador” (por mais que quem reaja mal aos telefonemas que recebe ou aos jantares a que vai sem ela não seja você), a sua paciência acaba por lhe recomendar que lhe diga: “Olha, se é para isto, mais vale acabarmos!” - com uma parte de si a desejar, remotamente, que essa pessoa se dê conta da sua importância na sua vida e lute, apaixonadamente, por si. Aí - prepare-se! - arrisca-se a escutar um seco e frio: “Acho bem!”. “Equipado” com uma proposta do género: “Mas, agora, não me digas que não podemos ficar amigos e jantar, de vez em quando...” que, contra aquilo que mais desejava, desperta em si o desconforto de alguém se propor arquivar a vossa relação numa espécie de “reserva de propriedade”. De um modo muito, muito semelhante ao que essa pessoa foi fazendo com todas as pessoas que, entretanto, namorou. Não sem que, antes d’A Despedida, com uma lágrima ao canto do olho, e depois de um abraço apertado, lhe dizer: “Tu mereces melhor!”. Passado algum tempo, mal sinta que está a respirar fundo por se ter visto livre desta relação, irá receber outra mensagem. Mais ou menos assim: “Mas porque é que só percebemos a importância de uma pessoa depois de a perdermos? “.

Quem disse que apaixonar-se por alguém não é perigoso?

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