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Uma pessoa habitua-se
A distância entre amar e estar-se acompanhado?

Eram seis da tarde, mais ou menos, e eu tinha a Martinha, de 16 anos, ao pé de mim, a explicar-me que apaixonar significa desestabilizar. Eu não tinha, ainda, percebido porque é que lhe chamam Martinha, por exemplo, por mais que imaginasse que esse nome carinhoso talvez lhe se pudesse virar contra ela e dar um formato de roupa de criança a tudo o que ela pensasse. Mas isso deixou de ser importante a partir do momento em que a tinha ao pé de mim - viva, intensa e expressiva - a explicar-me, duma forma batoteira, que só não se apaixonava para não pôr em perigo testes, exames e notas. Às vezes, eu acho que - a exemplo dos adultos que, sempre que não se sentem amados, assumem, como missão, salvar o casamento - há muitos adolescentes que não estando por aí além apaixonados pela vida que têm se salvam com a escola. Vale o que vale, de acordo. Mas tem qualquer de “saída de emergência” que, mais tarde ou mais cedo, corre mal.

É verdade que me perguntei se a devia corrigir. Se lhe devia ter dito que as pessoas que procuram estabilidade não amam, simplesmente. Habituam-se a viver de desamor. Porque vivem o amor a medo. E de lhe dizer, ainda, que eu não estava à espera - essa é a verdade - que ninguém, muito menos, com a idade dela (mesmo sendo batoteira) vivesse o amor assim. Eu acho que ela percebeu o meu dilema e, antes que eu me estatelasse ao comprido com um comentário precipitado, ela explicou-me que as colegas que namoram não estão apaixonadas pelos respectivos namorados. E que essa forma de amar sem amor a desestabiliza. Porque não a entende. E a assusta, até. (- Ah! bom - pensei para mim) Aí, eu respirei fundo. E sorri, para dentro, dizendo a mim próprio que há silêncios que são sábios, realmente. E mais confortado por sentir a Martinha a pensar com um formato de roupa de crescida, comentei:

  • Amar sem amor? É mesmo assim?… (disse eu)
  • Elas dizem que sim. Não estão sozinhas. Não estão estão apaixonadas. “Mas uma pessoa habitua-se”.

 

A distância entre os nossos exemplos e as atitudes dos nossos filhos, pensei eu, vê-se nos desabafos dos adolescentes em relação aos amigos.

É verdade que somos frágeis, quando nascemos. E, de tão vulneráveis - e não podendo sobreviver de outra forma - nos agarramos com unhas e dentes a quem nos dá segurança e carinho, e a quem cuida de nós e nos lê. E é, também, verdade, que somos engenhosos e sábios, logo desde o princípio. E que, em vez de termos com ela uma relação unicamente utilitária, nos ligamos à mãe, nos vinculamos a ela e, quando damos por isso, descobrimos o amor. E é, ainda, verdade que, embalados por essa matriz (que nos torna mais sábios, ainda), nos lançamos pelo mundo, imaginando que, a exemplo do seu amor, as pessoas estão disponíveis a dar-se, a escutar-nos, a sentir-nos e a olhar por nós. E, finalmente, é verdade que, só por causa dessa experiência ser tão longínqua, talvez tomemos o amor como o ar a que temos direito. Como se, à custa de tão amados, não precisássemos de lutar pelo amor como um bebé luta pela sua mãe. Mas se é assim, como é que nos deixamos andar, preguiçosamente, como se o amor fosse um hábito que se ganha? Quando ele é alma e só alma, que se ganha, todos os dias, quando lutamos por ele?

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