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Violência no namoro (sem nódoas negras e coisas assim)
Violência "de seda"

Hoje, vou falar de outra violência no namoro. Não daquela que se passa entre os adolescentes, de que todos falam. Mas duma outra, "de seda", que não deixa nódoas negras e coisas assim, e que, às vezes, não parece que dói. Mas que faz com que fiquemos "possuídos" pela dor que uma relação nos traz e, que, por vezes, se acumula, devagarinho. Que, com a nossa absoluta conivência, nos tira luz e graça. (Engraçado como se vai da graça à des-graça!) E nos afasta de tudo o que de mais íntimo e de mais verdadeiro existe naquilo que desejamos e em que mais acreditamos. E que nos torna agrestes e amargos. Ou indiferentes.

Eu acho que quando passamos o tempo a exibir a nossa vida não temos vida. Na verdade, as fotografias que exibimos - e que deviam pressupor que namoramos, descaradamente, com ela - são estranhas. Amarmos a vida não supõe que se ponha Photoshop naquilo que somos. E tenho medo que - nas redes sociais e fora delas - passemos a vida a recorrer ao Photoshop. Se for assim, não somos felizes. Seremos, antes, "patetas alegres". Ora, a violência essencial que fica de um namoro que nos estraçalha é essa: transformar pessoas amantes e amáveis em "patetas alegres". Esvaziar-nos da fé de encontrarmos "a pessoa" que nos leve a acreditar naquilo que é verdade em nós. As pessoas que merecem o nosso namoro nunca se encontram. Sobretudo se não fizermos "tudo" o que for preciso para as encontrarmos. Essas pessoas que merecem o nosso namoro, reconhecem o que temos de bom, ainda quando duvidamos disso, e acreditam no que nós somos quando nos restam, simplesmente, as saudades daquilo que já fomos. E antes, ainda, de acreditarmos em nós. É por isso que, sempre que nos sentimos incapazes de amar, o melhor do que conseguimos passa por nos resignarmos a seduzir ou a encantar. E é por isso que, muitas vezes, ao irmos por aí, fazemos mal.

Acho que sabem que gosto do Dumbo; não é?… Na verdade, ele é um elefante. Ponto! Um elefante não voa só porque acredita que pode voar. É claro que os corvos - quando faziam de coaches, na história - lhe diziam (e repetiam) que todos somos capazes de tudo, só porque acreditamos. O mal de muito coaching passa pelas meias-verdades. Um elefante só voa quando alguém que o ame acredita nele, muito antes dele próprio acreditar no seu amor por quem o ame. E antes, pois, dele próprio acreditar que pode voar. Precisamos dos outros para acreditar; é isso. Ora, a violência maior que fica do namoro passa por, até um determinado dia, nos sentirmos borboletas e, logo a seguir, cairmos com estrondo. E nos sentirmos trombudos e pesadões; uns elefantes. A violência maior que fica de um namoro que nos faz em fanicos passa por sentirmos que alguém de quem nos separámos vive dentro de nós, todos os dias. E nos rouba a graça de acreditar. E nos dá mil empurrõezinhos por nos resignarmos aos slogans. Como, por exemplo: "Ainda acreditas em príncipes...". Quando, na verdade, se nem todos acreditamos em príncipes, todos acreditamos que haja quem, só porque nos ama, nos adivinha os desejos e faz de Pai Natal!

A "chatice" de um namoro que nos estraçalha é que - da mesma forma como quando vivemos a morte de alguém que amamos descobrimos que quem vive connosco não enxerga nem uma pontinha da nossa dor, e com uma morte perdemos muitas pessoas - quando saímos de um namoro, descobrimos que muitos dos nossos amigos que nos falam de príncipes, quando tudo nos dói, parecem só existir para nos roubarem o pouco que resta da nossa luz. Em vez de serem nossos amigos, são "corvos". Que, à boa maneira do coaching, nos dizem: "Acredita!" Mas que o melhor que nos dão é darem a entender que sozinhos conseguimos o que for preciso (como ser feliz, por exemplo). E, que, todavia, nos recordam, que não deixamos de ser, simplesmente, trombudos e pesadões. Ou uns elefantes, portanto. Porque estamos tristes! São esses "amigos" que nos lembram que a vida nos dá sempre aquilo de que precisamos. Mas não é assim! A vida só nós dá aquilo de que precisamos quando nos resignamos ao que ela nos dá. Não tanto quando batalhamos por aquilo que procuramos. Ou quando nos permitimos exigir-lhe aquilo a que temos direito. É essa a maior violência que fica do namoro: servir de atestado de óbito para aquilo em que acreditamos. Mostrando-nos, mesmo junto daqueles que seriam nossos amigos, que estamos sós. Sem sermos capazes de renascer para a graça. Para o bem-querer. Para sermos capazes de perceber a diferença entre imaginar que se voa e aprender a voar. E sem sermos capazes de acreditar! Ficando no "nem gosto, nem desgosto" de tantas pessoas que - não sendo adolescentes vítimas de violência, no namoro - são mais vítimas e mais violentadas do que, supostamente (e tragicamente!) elas próprias supõem.

A violência maior que fica de um namoro passa por deixarmos de acreditar no namoro. É simples. Mas não é isso - mesmo quando nada nos estraçalha - que passamos a vida a dizer uns aos outros, quando assumimos que o fim do namoro se dá com o casamento (quando, depois do namoro, devia vir o namoro que é, curiosamente, aquilo que nos faz casar sempre mais e mais um bocadinho)?

 

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