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É difícil ser pai!
Amanhã é outro dia...

Uma pessoa trabalha uma semana toda que se farta. Anda no trânsito. Atura as azias dos chefes. Forra-se de paciência para não disparatar com os clientes. “Veste a camisola” fazendo de conta que essa fórmula não tem nada a ver com uma certa “tendência” para sermos explorados mais um bocadinho. Está sempre agarrado ao telemóvel porque desde o trabalho, à mulher e aos filhos se institui que, homem que é homem, tem que estar sempre disponível e contactável. Chega a casa com os nervos “em franja” porque há sempre alguma coisa em que podia ter feito melhor. E quando, finalmente, vem à procura de tudo o que a vida pode ter de zen, o que é que se passa?
“Ainda bem que chegaste, porque é preciso ires buscar o nosso filho ao futebol porque, hoje, ele não tem boleia”. E uma pessoa vai. “Tens de ralhar à tua (!) filha porque - ainda não estou em mim - ela foi malcriada para a mãe”. E uma pessoa ralha. “Tiras o nosso filho do banho?” E uma pessoa tira. “Mas quantas vezes tenho eu te dizer que este pijama é quente demais para ele?” E uma pessoa pede desculpa pelo pijama. “Põe a sopa ao lume, sim?” E uma pessoa põe. “Vais—lhe dando a sopa?” E uma pessoa dá. “Porque é que acabo sempre a ser eu a terminar de lhes dar a comida?” E uma pessoa cala-se. “Ainda não percebeste que estás sempre a implicar com o nosso filho e que não sabes parar?” E uma pessoa pára. “Mas, afinal, quem é que aqui é a criança?” E uma pessoa acha que são os filhos mas não diz nada. “Preferes lavares-lhes os dentes ou contar-lhes a história?” E uma pessoa diz que tanto lhe faz. E, depois, há o beijinho. Mais um. “Pai, molhei as calças...”. E, claro, mais um “episódio” com voz grossa de pai a ralhar sem saber muito bem porquê. E um último “mimo”, antes do “boa noite!”, do género: “Eu quero a mãe! Não gosto do pai!”. Nada que o “sexo forte” lá de casa não aguente!
Seja como for, tentamos ser os primeiros a chegar à sala e sentar-mo-nos com o comando da televisão, guardado só para nós. Amanhã, sobra para nós o carro que temos de deixar na revisão. Resolver o problema da campainha, que não toca. O gás, claro, que é preciso trazer até cá cima. A lenha porque está frio, outra vez. Confirmar as contas. Dar um salto ao colégio para fazer de “rei leão” junto da professora de português. E imaginar um fim-de-semana romântico sem que estejamos sempre a ouvir que nunca os marcamos e que de romântico talvez haja melhor que nós. Ao fim de breves minutos de sofá, qual guerreiro, adormecemos. A seguir, quando acordamos, e vamos aos encontrões às paredes para o quarto, temos à nossa espera um cumprimento do género: “Um dia, ainda hei-de ser capaz de dormir assim, antes de vir para a cama.” Uma pessoa sorri, envergonhada. Enfia-se pelos lençóis adentro. “Dorme bem!”. Respira fundo. E pensa: “às vezes, fico admirado com a minha paciência!

Deixemo-nos de coisas: ninguém entende como é difícil ser-se pai. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Fazer de forte e de guerreiro. Fazer de conta que não se tem medo e que nunca se perde. Sentir a exaustão de não ter ninguém (nunca) a olhar por nós. E pronto: toca a pôr o despertador sempre para mais cedo porque não há pão e tenho de preparar o pequeno-almoço antes dos miúdos acordarem. (Suspiro) “A vida é assim. Amanhã é outro dia."

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