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A carteira da mãe
Esse mundo "misterioso"

Com outras versatilidades que um canivete suíço nunca terá (se bem que, igualmente, portátil) e com muitíssimas mais respostas que os mais sofisticados robots de cozinha, a carteira da mãe é um componente fundamental do dia a dia de uma família. A carteira da mãe (que, considerando a imensidão de coisas que lá se guardam, mais devia ser “a maaaaala da mãe”) fica ali, entre uma despensa e uma arrecadação. Às vezes, quase chega a rivalizar com um atrelado ou com um veículo de carga que, em vez de rodas e de chassi, vem equipado com duas pegas e uma correia que permite que ela se transporte à tiracolo. E, considerando o seu imenso peso, acaba por ser um adereço de moda e, simultaneamente, um aparelho amigo do fitness, que tão depressa ajuda na musculação como tem excelentes resultados nos exercícios que dão ao coração outra robustez.

A carteira da mãe é um estojo de primeiros socorros. Um arquivo vivo de facturas e de talões de desconto. De forma quase inacreditável, é uma mala lúdica, equipada com brinquedos, lápis de cor e um caderninho para colorir. Na carteira da mãe cabem, também, uma maçã, banana ou um iogurte. Os já célebres pacotinhos de bolachas. Um ou dois “casaquinhos”, não vá ficar frio. Um chapéu, por causa dos atrevimentos que o sol possa ter. E uma garrafa de água que se barricou por lá, depois da sofreguidão de sede de uma das crianças. A carteira da mãe é, também, um pequeno departamento de limpeza que incluiu: lenços de papel, máscaras sociais, toalhetes húmidos e, claro, gel desinfectante. Dois cromos de Lego Ninjago, que se entrincheiraram por ali, para não “morrerem” às mãos de uma criança. Os óculos de sol dos mais pequenos. Uma chucha esquecida, para o que der e vier. E - la piéce de resistance - as notas da última avaliação escolar, que dão sempre muito jeito quando, “distraidamente”, a mãe deita a mão à carteira e as saca, dizendo: “Não é por ser meu filho, mas o diabo do miúdo quase me preocupa com estas notas tão boas...”. É claro que estão, também, por lá o porta-moedas, a carteira dos documentos, o estojo de beleza, as chaves, o telemóvel, os óculos escuros, os óculos de ler, a última multa de estacionamento e - como se nada disto já não fosse demais - um ou outro elemento “acidental” a que dão à carteira da mãe o charme discreto duma caixinha das surpresas.

A carteira da mãe “mede-se” pela imensidão de coisas que se “escondem” por lá. Quanto mais ternura mais objectos improváveis; a fórmula é mais ou menos assim. Mas o que é mais delicioso é que a carteira da mãe é uma espécie de “ponto de encontro”, sempre que alguma coisa se perde. Ou quase um porto seguro. Até porque na carteira da mãe não há controlo alfandegário. Como todos os viajantes são bem vindos - mas todos, mesmo, independentemente da cor, da forma ou do tamanho - a carteira da mãe tão depressa se parece com um abrigo de montanha como com uma gruta inexpugnável. Ou como uma sala de estar, com um frenesi que é só seu.

O orgulho bondoso com que elas vivem a sua carteira de mãe, por maior que ela seja, faz com que todas as mães façam daquilo que ela guarda uma espécie de saco de presentes. Na carteira da mãe guarda-se a alegria. Aquilo que enxuga as lágrimas. Os pensos que estancam “dores dilacerantes” que se tentam evadir “à boleia” de um arranhão no joelho. O amparo. E o aconchego. Por tudo isto, nada me tira da cabeça que a carteira da mãe é uma espécie de “agente secreto” ao serviço do amor de mãe. Qualquer coisa como isso! Mas, seja como for, se é verdade que quem tem uma mãe tem (quase) tudo, quem tem uma mãe equipada com uma carteira como deve ser tem “mais que tudo”. E, tenho para mim que o segredo do poder das mães começa por aí...

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