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A família não se escolhe
Escutamos tantas vezes "Os amigos escolhem-se; a família não"

Acontece comigo como consigo, acho eu, escutarmos muitas vezes: "Os amigos escolhem-se; a família não". Como se houvesse um "qualquer coisa" de fatalidade na família que temos. E, sobretudo, como se, em relação a ela, não houvesse muito mais a fazer, para lá de nos sentirmos "vítimas" dela. E da família ser quase um fardo. Que, não fossem os amigos, nos faz sentir mais ou menos sozinhos. Sempre mal-conhecidos ou "atropelados" por inúmeros mal-entendidos. Como se a família, em vez de nos curar das dores, fosse, ela mesma, uma "dor". Quase permanente.

É verdade, também, que não adianta cairmos no outro "extremo" e "pintarmos" a família toda a "cor de rosa". Como se família fosse, sempre, sinónimo de presépio. De colo. De mimo. De carinho. Ou uma espécie de "barco do amor", onde as viagens não têm mais fim.

São tantos os nossos amigos que falam de relações dificílimas com um dos pais; são tantas as pessoas que todos conhecemos que não falam com irmãos ou, até, com os pais; são tantas as vezes em que não ousamos confidenciar aquilo que sentimos aos nossos pais para que, em vez de termos um problema passarmos a ter dois, que a família, podendo ser (e sendo, muitas vezes!) a "reserva natural do amor", nos ajuda a perceber que ela nos cura das dores como, ao contrário daquilo que todos queremos, gera a dor. Incentiva a dor. E alimenta a dor.

Mas esta postura que nos leva a afirmar que "a família não se escolhe" pode, também, enganar-nos com a verdade. E omitir todas as vezes em que, podendo nós dar um passo no sentido de esclarecermos meias-palavras, aclararmos episódiozinhos toscos, sairmos da lamúria (e irmos, estrada adiante, em relação ao protesto) ou contornarmos os amuos e falarmos, de frente, daquilo que nos magoa, ficamos numa atitude de retirada, própria de "meninos magoados". À espera que a família intua, esclareça, lute e resolva. Como se fôssemos crianças que comunicam por "sinais de fumo" e esperam que os pais "virem o mundo" e ponham no lugar tudo o que, estando de "pernas para o ar", precisa de ser virado do avesso.

Há, sem dúvida, maus pais. E famílias que são, em tudo, ao contrário do que deviam ser, lugares "tóxicos" e, até, irrespiráveis. Mas não faz sentido que se generalize tudo isto como se de uma "regra" se tratasse. E, muito menos, que se atente contra o bom nome da família com um slogan que nos desculpabiliza das nossas faltas e daquilo que, também nós, lhe podemos dar. A família pode não se escolher. É verdade que não. Mas aquilo que somos na relação com ela também depende de nós! Até porque, muitas vezes, somos uns com os nossos amigos e outros, diferentes, com a nossa família. A nossa família terá alguma responsabilidade nisso tudo. É claro que sim. Mas nós - desculpem! - também.

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