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A hora da gritaria
O período crítico entre as 6 e as 9

E, depois, uma pessoa chega a casa. E quando os astros deviam estar alinhados e o mundo devia tomar uma forma zen, há sempre uma das crianças que acaba aos gritos ("Ele bateu-me!") e a outra, numa fúria pegada, a argumentar: "Foi ele que começou!" E o que faz uma mãe? Pega no discurso inspiracional do último blog? Não! Nada disso. A mãe... grita.
Logo a seguir, respira fundo. Pega nas técnicas de relaxamento, cheias de mindset, sugeridas por outros blogs e, quando, finalmente, a casa parece sossegar, entra na cozinha e percebe que as bananas partiram em debandada, as bolachas capitularam às mãos da criançada e alguém atacou o pão e a manteiga e deixou os destroços pela cozinha. E o que faz uma mãe? Conclui que o Universo irá conspirar a seu favor e que, a seu tempo, tudo se resolverá? Nada disso! A mãe... grita!
Como se tanta agitação não chegasse, depois dela ter dito que não queria os filhos a "enfeirar" desenhos animados, repara que há um silêncio estranho em casa que quase convida à meditação. Vai com "pezinhos de lã" e descobre que as crianças estão sentadinhas, com o nariz em cima da televisão, a ver aqueles desenhos animados em que um rapaz de 11 dirige uma patrulha de cães ou uma personagem, sempre trapalhona, desafia qualquer tentativa de autoridade e se expõe a todos os perigos. E o que faz a mãe? Deita mão ao que há de melhor nas receitas dos discursos motivacionais e, cheia de desenvolvimento pessoal, reage sem nãos, sem gritos e, sobretudo, de forma fácil? Não! A mãe... grita.
E, depois, vem a hora do banho. E o rebuliço aumenta. "Mas porque é que tenho de ser eu o primeiro?" . Mais um "Ó mãe, o mano dizeu estúpido!". E mais uma zaragata de todo o tamanho porque "O balão azul é meu!" . E uma mãe o que faz? Enche-se de parentalidade positiva e fala ao coração da criançada? Não! A mãe... grita.
A seguir, quando está, penosamente, a caminho do jantar, a mãe vê uma das crianças a correr, de cuecas, e a outra, encharcada, aos saltos no sofá. Deita a mão à auto-ajuda (e se precisa dela!!) ou lembra-se do poder das emoções e pega num desses "atreve-te!" e põe aquela malta "em sentido", sem nunca levantar a voz? Não! A mãe... grita.
E falta, ainda, o jantar. E a luta contra a sopa. E um comboio de "não é justo!" e de "não gosto de ti!" . E, depois, ainda faltam os dentes lavados, claro. E 20 vezes o, já clássico, "está na hora de dormir!" com taxas de abstenção maiores que as das eleições europeias. Tudo numa algazarra que, contada, ninguém acredita. E o que é que faz a mãe? Barrica-se no "ama-te a ti própria" que outros blogs recomendam? Não! A mãe... grita.
Há, portanto, um período entre as 6 e as 9, que nas famílias saudáveis são "a hora da gritaria". Porque é que há-de a mãe ir ao ginásio se as crianças são as melhores amigas do cardio? Não era altura de pouparmos a mãe de todos os conselhos simples, fáceis, claros e óbvios de serem mães e fazer que as horas acumuladas entre as 6 e as 9 contassem, a dobrar, para o cálculo da reforma?

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