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As crianças não aceitam nãos. Mas aceitam os pais que lhos dizem
Como se educa sem "nãos"?

"O meu filho não aceita um não!" é uma expressão muito comum entre os pais. Na maior parte das vezes, ouço-a como um lamento. Como se os pais me quisessem dizer que os seus filhos deveriam ser mais cooperantes do que aquilo que são na forma como deviam parar, quase sem protestarem, diante dos nãos dos pais. Ora, um não é sempre uma circunstância de conflito entre duas pessoas - assumida por uma delas - que "chocam de frente" quando cada um dos seus dois sins não coincidem. Um não é uma reacção a um dado comportamento de um filho que magoa os pais. Magoa aquilo que eles entendem que não é admissível no seu comportamento. Ou magoa-os, directamente, no modo como eles se sentem desafiados ou "agredidos" por ele. Até aqui, tudo saudável, portanto.

O que se torna estranha é esta ideia que as crianças aprendem os nãos sem "dor". Como se elas não precisassem de se experimentar, de se "esticar" ou de arriscar para, depois, conciliarem os seus ímpetos, movidos pela curiosidade, com aquilo que os pais entendem que as prejudica ou que as expõe a perigos. "Aceitar um não" não significa que uma criança se concilie, cordialmente, com aquilo que os pais entendem como inegociável. Mas supõe que, por tudo aquilo que eles lhe dão, ela, mesmo vencida e de mau humor, percebe que não há forma de levar "a sua" por diante. Ou seja, em muitos momentos, os nãos aceitam-se por medo. Porque uma criança reconhece que não há forma de desafiar mais os pais sem que eles, a seguir, se zanguem muito.

Por outras palavras, a dúvida que leva a que os pais se perguntem "Mas será medo ou respeito?" deve ser respondida com: é respeito, claro, em consequência do sentido de justiça, da sabedoria e da bondade que as crianças reconhecem aos pais; e é medo, obviamente, sempre que elas compreendem que ir para lá daquilo que os pais entendem que as protege merece um grande "sinal vermelho". Isto é, terem um bocadinho de medo da reacção dos pais leva a que elas matizem astúcia, garra e determinação com o "faço bem ou faço mal?" que as torna sensatas. Terem, em circunstâncias-limite, um bocadinho de medo dos pais é, pois, um factor de crescimento.

Ora, o que parece estranho é que os pais, para fugirem de impor as regras, sempre que as entendem impôr, suscitando algum medo se for preciso, se tornem medricas. Dizem não sem alma e com medo. E parece que estão sempre a pedir desculpa por terem de ser pais. Como se os seus nãos fossem uma ameaça para serem amados. Ou como se sentissem com o dever de seduzir os seus filhos para as regras mais do que as devessem exigir. Como podem os pais educar sem dizer não? Ou como podem ser pais amáveis se aquilo que parecem fazer passa, sobretudo, por lhes agradar? Não podem!

Chega, portanto, isto dos pais esperarem que os filhos ponham "gosto" em tudo aquilo que eles fazem. Chega de imaginarem que se aprende a ser pais numa versão de "seguidores" de filhos. E chega de querer as crianças como "influenciadoras" de pais. Elas aceitam os pais sempre que eles são pais. E não os aceitam sempre que eles aguardam pela sua aceitação para serem tão pais como elas necessitam que eles sejam.

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