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As lojas de brinquedos estão a acabar!
E sem elas não há infância

Hoje gostava muito de conversar convosco acerca dos brinquedos. Porque, se repararem, as lojas de brinquedos vão desaparecendo, aos bocadinhos. As grandes superfícies dedicadas, exclusivamente, aos brinquedos, lutam contra um colapso que se anuncia, de forma lenta e irreversível. E, mesmo, os hipermercados parecem não reconhecer aos brinquedos a importância que os leve a escolhê-los com critério, optando por uma massificação - ofensiva para o bom gosto e para os critérios de qualidade exigíveis, considerando o ponto de vista do “utilizador” - em que a cor, o barulho e os “efeitos especiais” que eles produzem (por vezes, de forma quase completamente rudimentar) parecem ser os atributos que melhor os caracterizam. Na verdade, é estranho que, por mais que se dê (como nunca) importância às crianças, e apesar do poder de compra dos pais ser, hoje, muito mais significativo do que aquilo que era, os brinquedos parecem ter entrado numa curva descendente de importância para os pais que faz com que, aos bocadinhos, sejam empurrados para a extinção.

Será porque esta geração é tão amiga do digital que os brinquedos perderam espaço, interesse e preponderância? Eu sei que essa é a interpretação mais banal; mas não acho seja por aí que tudo se passa. Até porque, sempre que queremos justificar os nossos fracassos como mediadores na relação das crianças com o brincar e com os brinquedos, com o livro ou com a escola, o digital acaba por ser a desculpa “perfeita”. Mas não é assim. Até porque as crianças adoram brincar. Amam os brinquedos. E percebem que eles são verdadeiros angariadores de relações entre “brincadores”.

O que se passa é que, tirando o digital (que inova e tenta adequar-se às diversas competências do público a que se dedica), e o áudio-visual (que influencia e promove a aquisição dos brinquedos, desde a concepção à sua comercialização, às vezes com uma agressividade comercial que não tem merecido as medidas de protecção indispensáveis, considerando que os nossos filhos são crianças!), “o brinquedo” parece não se ter dado conta que a forma como as crianças, hoje, indagam, pensam, conhecem, experimentam e criam não tem nada a ver com aquilo que quem cria e vende brinquedos, regra geral, imagina. À escala dos produtos para os adultos, os brinquedos que são, habitualmente, comercializados para crianças estão para a sua riqueza cognitiva e para a complexidade que elas têm como o sabão azul para o Tide, por exemplo.

Será que a configuração, a expressão emocional, a textura, a cor, a forma como comunicam, etc. dos brinquedos considera a intuição, a capacidade de discriminação e a intencionalidade das escolhas das crianças? Muitas vezes, não. Será que aquilo que eles lhes propõem leva em linha de conta a relação que elas têm com o corpo, com o raciocínio simbólico ou com o pensamento abstracto? Muitas vezes, não. Será que os pais “entram” em cada brinquedo e na função que “aquele” brinquedo parece oferecer aos seus filhos, e os imaginam aos dois numa relação intensa? Muitas vezes, também não. Logo, aquilo que afasta as crianças do brinquedo é o próprio brinquedo. A forma como ele as “imagina” a acolhê-lo e a utilizá-lo. Isto é, os brinquedos parecem estar a morrer porque, desde a sua concepção aos materiais que utilizam, os brinquedos não conhecem os crianças como as crianças conhecem os brinquedos.

Por tudo isto, se é mãe ou pai, salve as lojas de brinquedos porque sem elas não há infância. Não permita que os seus filhos sejam expostos a campanhas publicitárias - regra geral, exclusivas para os canais que eles “consomem” - que só enviesam a função preciosa que, com outro critério, eles podem ter no seu desenvolvimento. Não lhes compre brinquedos (nem livros!) com o mesmo critério com que compra batatas fritas ou cereais de pequeno-almoço. Os brinquedos são coisas muito sérias que não se compram à pressa, da mesma forma como se tira o leite ou o arroz duma prateleira de supermercado. Não lhes compre os brinquedos que, quando tinha a idade deles, terá querido muito ter porque, habitualmente, esses brinquedos são mais para si do que para eles. Não ligue ao “politicamente correcto” relativamente ao brinquedo e vá, sobretudo, pela sua intuição. Não lhes compre nem muitos brinquedos nem o faça de forma impulsiva. E não o faça nunca sem que, antes, se pergunte para que é que serve, como é que se faz e onde é que um dado brinquedo pretende chegar. E não esqueça que os brinquedos não servem para que se brinque sozinho.

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