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Caça-fantasmas
E os medos à solta

A morte é “a mãe de todos os medos”. E os medos são tanto maiores quanto mais dificilmente as crianças os configuram numa imagem ou numa forma. É por isso que elas têm mais medo do Papão que dos Fantasmas, ou das Bruxas que d’ “O homem do saco”, por exemplo. Trata-se, aliás, de dar às coisas más - a todas as coisas más que elas já viveram - um rosto que será tanto mais eficaz quanto mais ele as guarde todas em si. Quanto mais o medo está concentrado num só rosto mais essa personagem, ao chamar a si quase todo o mal, mais “protege” todos os outros daquilo que eles tenham de mau, de assustador ou de ameaçador. É por isso que as crianças precisam de personagens más que condensem ou “absorvam” em si tudo o que elas sintam que é ameaçador e mau para que, desse modo, em vez delas fugirem de tudo e de todos, “fujam” dos maus que as histórias lhes trazem e, assim, as ajudem a não fugir nem de si nem dos medos que as possam perseguir, por dentro, como vultos sem rosto que, em silêncio, as limitem. Na verdade, as histórias são caça-fantasmas. Que, por mais que lhes tragam algumas personagens - horrendas, aos olhos dos pais - protegem as crianças de os seus medos ficarem “à solta” evitando, assim, de as levarem a fugir. Os medos ajudam a comedir as crianças diante de quaisquer veleidades de serem omnipotentes. Vendo bem, os medos são os maiores amigos da sensatez. E da coragem. Sem medos nunca haveria coragem. Logo, os destemidos não são aqueles que ignoram os medos mas, antes, todos os que, não fugindo dos medos, não fogem de os enfrentar.

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