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Contar histórias como quem lava os dentes
A melhor fórmula para o crescimento

Se os pais são, muitas vezes, tão inseguros daquilo que fazem como pais a culpa não é só deles. Na verdade, são raras (e não deviam ser!) as oportunidades em que somos claros quando se trata de lhes dizermos: "Sim! Fez bem. Continue a fazer como tem feito. Muitas vezes!” E se há coisas que os pais fazem de forma exemplar é contarem histórias, "para adormecer". As aspas no "para adormecer" justificam-se. Elas não servem bem para sossegar as crianças e permitir-lhes que tenham um sono descansado. Na verdade, as histórias "para adormecer" servem um bocadinho "para acordar". Para acordar, para dentro. Para aquilo que se foi varrendo para baixo do tapete, ao longo de um dia, e que precisa dum espanador, duma arejadela, duma sacudidela e duma arrumação como deve ser, enquanto se dorme. Como é que as histórias "para adormecer" deviam ser só "para adormecer" se muitas dessas histórias têm monstros no quarto, Grufalões, e coisas do género? No entanto, as histórias "para adormecer" são tão preciosas e fazem tão bem ao desenvolvimento das crianças que funcionam como uma autêntica vitamina do crescimento.

Será que os pais contam histórias porque entendem que elas funcionam um bocadinho como, dantes, funcionava o óleo de fígado de bacalhau? Não! De forma muito intuitiva, os pais percebem que elas são preciosas e que fazem bem. Só isto! E, só por isso, não falham uma noite, que seja e não poupam as crianças a mais uma história. Mais do que os livros da escola, as histórias para adormecer são as melhores amigas dos livros! E põem as crianças a escutar tantas histórias que, mais importante do que elas terem quem de lhes dê um beijo de "boa noite", é terem aquele par de minutos em que um dos pais “namora” com elas e com os livros e se passeiam nas histórias. E lhes trazem o maravilhamento onde, até aí, o "nevoeiro dos dias" parecia teimar em não sair dali. As crianças percebem que não são bem as histórias mas a luz dos olhos dos pais, quando lhas contam, que faz de guardião dos seus sonhos e as deixa entregarem-se ao sono, de olhos fechados, porque têm quem olhe por eles.

Mas porque é os pais fazem - mesmo!!! - muito bem, quando contam histórias?
Porque contar histórias serve para que as crianças, à boleia de um enredo e de algumas personagens, dêem um rosto e um nome a muitas coisas que sentem e que intuem mas que não percebiam, até aí. E aprendam a pensar sobre elas. E, de repente, quase sem quererem, passem a conhecer melhor. Seja um pesadelo ou um medo. Uma diferença que se tenha em relação aos outros. Uma "fúria" de mãe. Ou a forma como se vê o pai, por exemplo.
Porque contar histórias serve para pôr a cabeça dos filhos a "dar voltas". E serve para os por a apanhar as ideias "no ar". Na verdade, serve para soltar as amarras que, quando se está muito quieto, muitas horas, ou se andou numa lufa-lufa o dia inteiro, atrapalham a nossa capacidade de imaginar. Sem a qual dormimos "a correr". Com a sensação de que os sonhos se entaramelam uns nos outros e não nos deixam descansar. Nem digerir tudo o que, entretanto, trouxemos para dentro da cabeça e precisa de ser compreendido como deve ser. Na verdade, contar histórias serve para arejar as ideias, arrumar a cabeça e abrir janelas onde, até aí, parecia só existir uma parede.
Porque contar histórias serve para que eles aprendam mais palavras. Palavras divertidas. Palavras "apessoadas". Palavras escaganifobéticas. Palavras exdrúxulas. Palavras. Palavras. Palavras! E quanto mais as crianças têm mais palavras na cabeça, melhor pensam. Mais falam. Menos guardam aquilo que se passa com elas. Melhor se defendem. E mais se aventuram.
Porque contar histórias faz com que, quanto mais têm palavras a acotovelarem-se dentro de si, mais vão do que sentem, à imaginação, da imaginação à palavra e da palavra até às conquistas. Logo, mais despachadas elas se tornam. Menos "moem". Mais põem pontos nos "is". Melhor se explicam. E mais reivindicam.
Porque contar histórias faz com que vão da imagem até à história e da história até à "moral". Ou, se preferirem, mais vão da educação visual à palavra, da lógica à representação abstracta, da emoção ao "faz de conta", da simbolização à síntese. Isto é, melhor formulam um problema e mais o aprendem a resolver.
Porque contar histórias dá alma e luz e rostos e vida ao escuro da noite. E ensina às crianças que o sonho não é a linguagem do sono. Mas, antes, a linguagem de tudo o que se pensa quando não nos reprimem aquilo que sentimos quando nos deixam, livremente, imaginar.

Por tudo, os pais, quando contam histórias para adormecer fazem bem. Fazem, mesmo, muito bem. Porque percebem que, entre muitas horas de escola, sem alma, aqueles 10 minutos de histórias de adormecer, pela voz e pelo olhar da mãe ou do pai, são depois de tudo aquilo que elas aprendem com os exemplos dos pais, aquilo que mais as ensina, que melhor as faz crescer e quem as devolve aquilo que elas têm de melhor.

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