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Crianças por medida: tutorial
Como criar uma criança à imagem dos seus pais

1. Se quiser muito que o seu filho se transforme numa criança por medida explique-lhe que tem de ser - sempre! - compenetrado. Que é feio dizer (ou pensar) asneiras e que tem de ser – queira ou não queira - amigo de todas as crianças.

2. Se, ainda assim, achar que deve aprimorar um pouco mais aquilo que tem para lhe dar, ignore a falta de insolência ou a forma como troca a rebeldia por um jeito comedido e atinado. E elogie, sobretudo (com vaidade, de preferência) que ele «não dá problemas nenhuns» (porque, como sabe, as crianças que não põem problemas aos pais são, milimetricamente, iguais a eles, o que só sucede quando crescem dominadas pelo pavor de os contrariar).

3. Mas se, no entretanto, não ficar satisfeito, utilize até aos últimos segundos todo o tempo que a escola lhe oferece para o ter à sua guarda. Na passagem, insurja-se contra o modo como as crianças têm «brincadeiras parvas» e se aleijam nos recreios e, se puder, reclame contra elas. De seguida, não esqueça que ele deve ter inglês, computadores, catequese, judo, pintura e explicações (muitas, de preferência). Se, ainda assim, não se sentir confortável, ponha na ordem os professores que não mimam as crianças com muitos trabalhos de casa. É claro que não o deve deixar brincar no pátio. Lembre-se que a PlayStation dá cabo dos olhos e da cabeça dos miúdos, que os desenhos animados são violentos, e que as séries são o que todos sabemos. Se, finalmente, ao jantar, lhe quiser lembrar que a vida não está para brincadeiras isso ajuda, também.

4. Por favor, tenha em atenção que ele não deve, em circunstância nenhuma, brincar com armas ou com outros brinquedos violentos. E se - coisas do diabo, já se vê - ele se tomar de amores pelo irmão e voarem umas almofadas pela sala ponha-o, com rigor, de castigo. Mas, de preferência, não se distraia e não cometa a indelicadeza de o castigar, retirando-lhe tudo o que ele já não tem.

5. Se - por diabrura, ou por coisa assim – ele navegar na net, é claro que deve poder estar horas seguidas (afinal de contas. não está ele sossegado?). E não se canse de lhe recomendar que tem de ter cuidado com o que vê, mas sem nunca se sentar ao lado dele e, ao conversarem, partilharem a mais fantástica enciclopédia da humanidade. 

6. Imagine, agora, que um professor é infeliz com ele e o magoa por dentro, ao pé dos colegas, ou seja como for. Lembre-lhe que ele tem de aprender a resolver os seus próprios problemas. E, depois disso tudo, se um colega o humilhar, ralhe, antes de mais. Pergunte (de seguida) o que é que ele terá feito para alguém lhe ter batido. No final, se lhe forem escasseando os argumentos, intime-o a defender-se. Se, por infelicidade, estiver com os nervos em franja, tem sempre a possibilidade de repor a ordem reclamando contra a «falta de tempo de qualidade» que assola todos os pais ou com um desabafo do género: «que fiz eu a Deus para merecer isto!»

7. Depois disto tudo, se a criança começar a afundar as olheiras e se ficar prostrada, não se esqueça de reclamar contra o sistema educativo e, de preferência, embaraçar um director de turma mais disponível, argumentando que se as crianças passam mais tempo na escola do que em casa ela é, seguramente, de entre todos, a primeira responsável pela sua terrível educação. E se a criança, entretanto, estiver desatenta, ansiosa, num sufoco, das duas uma: ou é hiperactividade ou défice de atenção. Em vez de tentar encontrar um motivo para tamanho desvario, sugira uma medicação urgente (com mão leve, de preferência).

8. Por fim, descanse. Foi duro mas é possível: tem, finalmente, uma criança à sua medida. Ah!... E, se alguém lhe disser que as crianças aprendem com os exemplos dos pais não repare. Há gente capaz de tudo!

 

 

*Texto em repositório com edição especial para a sua versão digital

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