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Destapar o rosto. Tocar. E abraçar.
Estão os abraços caducados?

"É, realmente, preocupante de que, na sombra do COVID-19, os adultos não se apercebam dos danos que estão a causar nos valores das crianças; tão difíceis de adquirir mas tão fáceis de perder. Dou como exemplo o meu filho mais novo, que iniciou este ano o 1.º ciclo do ensino básico. Depois de um dia de escola - a qual, apesar das contingências atuais, ele adora e onde está a ser muito feliz - enquanto eu lhe dava o habitual banho, começou a chorar. Quando lhe perguntei o motivo do choro repentino, confessou-me que uma colega lhe tinha dado um abraço... E que ele estava com medo de apanhar o COVID! Claro que tive que desmistificar a situação, valorizar o abraço e dizer-lhe para não se preocupar. Ele acalmou, compreendeu, mas não sem deixar de dizer, ainda com alguma preocupação: "Hoje deu-me um abraço. Mas amanhã ainda me dá um beijo...".
Luís

Um abraço é um gesto estranho. Duas pessoas aceitam não desconfiar uma da outra. Aproximam-se, sem reservas, enquanto se olham nos olhos. Levantam os braços, como se, intimidantes, se fossem atacar. Respiram, sem ofegarem, quase o mesmo ar. Puxam-se, de certa forma, uma para a outra. E, enquanto respiram fundo, dão-se colo. Sorrindo. O tempo todo. Depois de um abraço, duas pessoas que se distanciem, já não se afastam. Fica um laço que as prende à confiança. E que não se desfaz.

É claro que há quem nos dê um abraço sem esperar, sequer, recebê-lo de volta. Porque aquilo que somos faz que gostem de nós. Terá sido assim com o amigo do seu rapaz. (Não foi?) Só que, em vez da lisonja, própria de quem se sente gostado, o seu rapaz sentiu que abraço do amigo lhe chegava com culpa. Do género: "O que é que eu fiz?!...". E a estranheza de alguém lhe ter feito mal ao fazer-lhe bem. A que juntou o medo, claro, de que todas as recomendações que lhe têm sido feitas tivessem ficado hipotecadas nos braços de um amigo.

O que nos arranha a alma é que a liberdade de abraçar, em oito meses, tenha caducado. E que este tempo que deslaça as pessoas tenha vindo para ficar. É verdade que nos une a esperança de que as crianças, depois disto tudo, abracem sem sombras e sem medo. Com garra. E com sofreguidão, até. Mas eu acho que, considerando os nosso filhos mais pequeninos, a palavra de ordem devia ser: destapar o rosto, tocar e abraçar. Não é tanto para nos insurgirmos contra a pandemia. É, mais, por não querermos que os gestos afectuosos que, ao longo dos séculos, conquistámos à desconfiança humana se transformem numa doença. Com futuro.

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