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Devia ser proibido dizer adeus
Seremos nós capazes de explicar a morte a uma criança?

Se as pessoas não morrem, como nos dizem, porque é que, a determinada altura, elas desaparecem sem se despedir, deixam de se lembrar de nós, deixam de atender o telefone e não mandam nem sequer um mail (do céu!), mal tenham lá chegado, só a dizer: “Olá! Cheguei”, “Correu tudo bem!” e outras coisas assim? Se as pessoas não morrem, como nos dizem, porque é que, sempre que desaparecem é impossível não nos sentirmos abandonados (e traídos!) por elas, em relação a todo o nosso amor? Sobretudo quando sentimos que precisarmos muito da sua presença junto a nós devia ser o motivo mais que suficiente pelo qual elas insistissem em viver, para sempre, ao nosso lado? Se as pessoas não morrem, como nos dizem, e, ainda assim, vão para um sítio melhor do que aquele em que vivemos, como nos garantem, porque é que, ao menos, não nos falam por Skype, nem que seja para dizerem que sem nós, ao pé de si, a sua vida perde todo o sentido e, só por isso, parecem morrer, por dentro, aos bocadinhos? Se as pessoas não morrem, como nos dizem, porque é que, ao menos, em vez de irmos para o Algarve, nas férias, não vamos todos para o céu e matamos as saudades e, assim, nos certificamos que o céu é um lugar bom e feliz - e muito bonito, também - um lugar melhor (sem internet, todavia) que valha, em quase tudo, a pena sermos trocados por ele, assim, sem mais nem menos, e sem aviso? Se as pessoas não morrem, como nos dizem, porque é que dói tanto e dói tão fundo, e nos corrói e magoa, sentirmos que - apesar de terem desaparecido, para sempre, de ao pé de nós - elas vivem um pouco por todos os nossos recantos (talvez como nunca tenham vivido quando estavam junto a nós), e sentimos o seu olhar, em todos os cantinhos que eram seus e recordamos os pequenos-nada que as fez tornar tão preciosas e “só nossas”? Como se, por um lado, elas tivessem morrido, claro, e, por outro, parecessem viver para sempre, como se o longe mais longe com que a sua morte nos trespassa as trouxesse, mais e mais, para um perto tão perto que, na maior parte das vezes, o nosso coração as sente e adivinha mas, de sobressalto em sobressalto, não se entende. Se as pessoas não morrem, como nos dizem, porque é que nunca ninguém nos avisa? Porque é que nos deixam que corramos o risco de não lhes dizermos, todas as vezes que nos for necessário, que as amamos? E que - sem elas, junto a nós - a nossa vida morre mais um bocadinho? Sempre que, ao mesmo tempo que os lugares delas estão vazios, parece que se passeiam no nosso coração e nos fica a sensação de que - delicadas e incansáveis -  elas olham por nós? Se as pessoas não morrem, como nos dizem, porque é que, ainda assim, deixamos que morram? E as deixamos sozinhas, no escuro, fechadas numa caixa, ao vento e à chuva?

(Seremos nós capazes de explicar a morte a uma criança ou, pelo contrário, vista pelos seus olhos, a morte, tal como elas a sentem, ajuda-nos a perceber melhor o quanto somos - todos nós - pequeninos e frágeis, sempre que dizemos adeus? Tão pequeninos e tão frágeis que, por isso, devia mesmo ser proibido dizer... “Adeus!”.)

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