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Educar pela negativa? Vá lá; sejam positivos!
Estamos todos de acordo: é muito difícil sermos pais...

Isto de “educar pela positiva” tem, ciclicamente, aparições que nos deviam dar que pensar. Sobretudo porque, sem que isso seja dito, somos todos levados ao constrangimento de imaginar que, apesar das nossas melhores intenções, educaremos pela “negativa”.
Ora, se já é demais que haja muito gente a chamar-nos a atenção de que precisaremos todos de uma espécie de “certificação parental" (como se necessitássemos todos de estar conforme as regras e os regulamentos que alguém pressupõe que serão indispensáveis para sermos pais); como se não fossem demais as pessoas que (mesmo sem formação, sem experiência de pais e sem experiência técnica) nos lembram das competências que devemos ter para educar ou que nos tentam “capacitar”; e como se não bastasse que haja quem se arrogue o direito de querer dar “acreditação” aos nossos desempenhos; dar-se, subtilmente, esta imagem que ”estragamos” os nossos filhos porque os educamos pela “negativa” passa dos limites.

Estamos todos de acordo: é muito difícil sermos pais. Exige sensibilidade, inteligência, bondade, bom senso, sentido de justiça e humildade.
E estaremos de acordo se afirmarmos que ninguém nasce “ensinado” para se ser ou mãe ou pai. Ou seja, isto de chegarmos à parentalidade só à boleia de “instinto maternal” e de “sexto sentido” não é, de todo, verdade. Precisamos de ensaios e de erros. E de aprendermos com eles. O que, de vez em quando, nem sempre acontece.
E, sim, é fácil estragarmos o “equipamento de base” dos nossos filhos, à conta de gestos educativos mal-amanhados.
E, finalmente, que precisamos de errar para aprendermos a ser pais. Coisa, aliás, que todos fazemos (regra geral) com uma generosidade fora do vulgar.
Mas partir-se do princípio que só educamos explicando e explicando e explicando as regras, para que os nosso filhos nos confiram uma espécie de “consentimento informado” para sermos pais, não é verdade. Como também não é que quanto mais afagamos a “auto-estima” dos nossos filhos mais eles crescem seguros. E não é, igualmente, verdade que se insinue que a alternativa à compreensão e à empatia são os nossos presumíveis sermões e as nossas recorrentes “condenações”. Como também não é verdade que se pressuponha que eles são uma espécie de “ratinhos de laboratório” que só aprendem quando os convidamos a encontrar uma solução ou quando lhes damos uma recompensa. E embrulhar tudo, muito embrulhadinho, chamando a esses passos “disciplina positiva” passa das marcas.
Porque pressupõe que educamos condenando. Porque insinua que passamos a vida a pôr os nossos filhos “para baixo”. Porque sugere que somos, muito mais do que educadores, repressores. Porque leva a supor que educamos aos berros e aos gritos, e não passamos sem rezingar e sem resmungar, o tempo todo. Porque quase alvitra que, mal nos distraímos, somos pais ou autoritários ou tiranos. Porque parte do princípio que a paciência é um bem escasso nos pais e que, perdidos e achados, eles têm o “pavio” curto e são impulsivos. E tudo isto é obsceno! Sobretudo porque condiciona os pais e, em inúmeros circunstâncias, os leva a inibirem-se de escutar, de pensar e de discernir entre o seu bom senso e as meias-verdades que escutam, a ponto de se desencontrarem daquilo que, em consciência, entendem justo e ponderado para os seus filhos. E é obsceno quando, com subtileza, dá a entender que exercer a autoridade e ser-se autoritário é a mesma coisa. E é obsceno porque, à conta de muitas interpretações “livres” do que é a educação positiva, vamos observando crianças a quem faltam regras e que, contra a vontade dos pais, em vez de terem uma auto-estima inquestionável, se transformam em crianças egocêntricas e agitadas, e no lugar de serem sensatas e equilibradas são, sobretudo, “mal-educadas”.
Ora, não é por gritarem, de vez em quando; ou por serem injustos, mesmo quando não querem; ou por exagerarem num comentário ou noutro, que os pais necessitam, muito rapidamente, de “treinadores” de pais que os capacitem para a tarefa de serem pais. Que, regra geral, ficam muito aquém da forma como os pais se colocam em causa e aprendem com os seus erros. Aliás, não tivessem os pais crescido - sempre! - para melhor e a Humanidade não teria assistido, ao longo dos séculos, a transformações fantásticas na forma como se vive a parentalidade, se entende a educação e se pratica a justiça para com as crianças. Logo, é altura de afirmar, claramente, que não é verdade que os pais, sem uma certificação “positiva”, eduquem pela negativa. Chega de nos encolhermos diante de meias-verdades que o melhor que conseguem, em muitos momentos, é estragarem os pais mais do que eles, quando não se põem em causa e não aprenderem com os seus erros, estragam os seus filhos.

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