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Este país só é para anjos?
Queremos crianças: criamos acrobatas

Mais escola não é, regra geral, para as crianças, melhor escola. Espaços de dez minutos de intervalo (a que correspondem três minutos e alguns segundos para irem à casa de banho, três minutos e alguns segundos para ir ao bar e três minutos e alguns segundos para brincar) entre blocos de noventa minutos de aulas e uma formação extracurricular empanturrante trazem stress crónico à vida das crianças, que não encontram na actividade física e no brincar espaços de metabolismo da agressividade que as acompanham. É por isso que o stress crónico é o melhor amigo dos défices de atenção e da hiperactividade

Sempre que há stress há agressividade. Isto é, sempre que a vida anda muito depressa e não é acompanhada pela nossa capacidade de entendimento do que estamos a viver ou a aprender ficamos assustados. À cautela, a agressividade dispara, automaticamente, e o nosso corpo fica num estado de alerta que nos prepara para agredir ou para fugir. A agressividade faz, portanto, muito bem à saúde. É o melhor ansiolítico e o melhor antidepressivo do mundo! Porque nos protege. Sempre que a utilizamos numa competição desportiva, num espaço lúdico ou rivalizando por um conhecimento, por exemplo, aprendemos a ser agressivos com maneiras. Sem ela não podemos ser ambiciosos, aventureiros ou conquistadores. Não se pode ser vivo, sensível e imaginativo sem se ser agressivo! Mas se geramos agressividade – funciona como uma correia de transmissão do motor que temos cá dentro – e se espartilhamos as crianças, não lhes dando tempo para brincar e para se engalfinharem fisicamente umas nas outras (até que descubram como podem agredir de forma mais leal e menos física) estamos a criar uma geração de anjos. Quanto mais contidas, menos íntegras, mais impulsivas e mais estúpidas as crianças se tornam. Quanto mais se guarda, mais a agressividade se converte em violência, que ora tende a expressar-se de forma impulsiva (como se fôssemos uma panela de pressão) ora se encapsula em sintomatologia depressiva. Isto é: se continuarmos a exigir o que exigimos das crianças estamos a criar uma geração de adolescentes imberbes, violentos ou deprimidos. Como alternativas de crescimento, convenhamos, qualquer uma delas não será do melhor.

Mas se olharmos as crianças partindo da vida dos pais – receio! - os exemplos não serão os melhores. Os compromissos do trabalho assumem, para eles, o protagonismo mais significativo, a que se seguem as suas preocupações com os filhos e, finalmente, as respectivas relações amorosas. Esta hierarquia estará invertida: em primeiro lugar, deveria estar a relação dos pais; em segundo, os filhos; em terceiro, os compromissos de trabalho. O quotidiano dos pais acaba por não ser generoso para os valores da família, favorecendo os ressentimentos, o enfado e a hostilidade, o lado hipnótico das rotinas, o desconhecimento mútuo e a solidão assistida. Como se não bastasse, pais assustados desligam o «piloto automático» e ligam um atrapalhador que os deixa, invariavelmente, em falta.

Nós não queremos crianças: criamos acrobatas. Damos-lhes famílias que as educam melhor que nunca, menos quando se trata de definirem prioridades aos carinhos que dão. Damos-lhes mais e melhor escola, menos quando se trata de dar ao brincar a importância fundamental que ele merece. Damos-lhes mais humanidade e mais justiça, menos quando se trata de nos escutarmos uns aos outros. Estamos errados. E os custos de tamanha insensatez, parece-me, serão longos e incalculáveis. Afinal, este país – só - é para anjos?

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