Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Famílias imperfeitas
Iguais a si próprias, com rabujice e extra mimo

Estou farto de famílias demasiado normais. Consertadinhas até dizer “basta!”. “Bacteriologicamente puras” naquilo que dão. E liofilizadas em relação aos sentimentos que autorizam.

Quero, mesmo, que as famílias tenham o direito milenar a voltarem a ser iguais a si próprias: imperfeitas! E, quando estamos aconchegados nelas, quero que tenhamos o direito a sermos como somos. De “coração grande” e com “mau feitio”. Mesmo que isso traga consigo o direito a sermos “feios de parar o trânsito” e a um comboio de desabafos do género: “que diferença é que isso faz?…”, sobretudo quando nos sentimos ser o melhor do mundo para alguém. E quero ter o direito ao quentinho que só uma família nos sabe dar. E o direito a desarrumar e a ser desarrumado. E, conforme os dias, a fechar toda a desarrumação numa gaveta e, com o conhecimento de todos, a fazer de conta que ninguém nota. E quero que tenhamos o direito a rir sem motivo nenhum e a chorar, devagarinho, "por nada"; ou, unicamente, "porque sim". E quero o direito ao melindre e aos arrufos, ao desabafo e à lamúria. E o direito a dizer "Quero colo e pronto!"; e não se fala mais nisso. E quero que tenhamos o direito, para sempre, a andar, primorosamente, despenteados. E, ainda assim, a não haver nada que nos demova de acreditar que o nosso charme fica, ainda mais, irresistível. E o direito a desabotoar o coração e a trazê-lo "de fralda de fora", todos os dias. E quero que se salvaguarde o direito a não termos maneiras, ao fim de semana. E o direito a fazermos dieta e, ao mesmo tempo, a termos todos os "só hoje..." a que temos direito. E o direito à palermice, à "cara feia", à carantonha e às caretas. E o direito a ter garra e a termos ganas. E quero o direito a cair e ao engasgo. O direito à fúria e a sermos parvos, com quotas e tudo. E o direito a sentarmo-nos no chão e a sujarmos a roupa, quando se brinca. E queremos ter direito a todos "Ele é assim!" com que, ternamente, há quem faça de conta que o nosso "feitio" não é feito de caprichos, mas quando muito, "defeitos de fabrico". E quero que tenhamos o direito a uma birra, uma vez por semana, e a, pelo menos, uma asneira, de oito em oito horas. E o direito a ser um bocadinho irresponsáveis e irreflectidos. A ter o coração ao pé da boca. E até, mesmo, o direito a sermos desbocados. E o direito ao mimo! E o direito a sermos medricas e, juntinho a isso, o direito a acreditar, com convicção, que ninguém nota. E queremos ter o direito a espirrar, com som, e a bocejar como o leão da Metro e, ao mesmo tempo, a achar que somos transparentes e que ninguém vê. E quero o direito a pegar por tudo e a pegar por nada. E o direito a rezingar. A afagar os caracóis e a "dar na cabeça". Quero que tenhamos o direito a murmurar e ao amuo. O direito a mandar mensagens parvas. A dar likes, cara a a cara, a quem se ama, e a trocar smiles, de olhos nos olhos, só porque queremos. Quero o direito a inventar. A mentir, com bondade, sempre que isso sirva para proteger ou para encantar. E o direito a fazer de conta, vezes a fio, e sempre que nos apeteça. E quero, ainda, ter o direito a ser apanhadores de nuvens. E a descobrir nelas girafas, bruxas com verrugas e não sei o quê. E o direito a inventar a vida. O direito a ter fé no amor. E o direito a confiar, sem reticências, e de olhos fechados. Quero ter o direito a acreditar que sempre que se pede um desejo e o guardamos para nós alguém nos lê, por dentro. E a acreditar que podemos não acreditar no Pai Natal que, mesmo assim, ele acredita em nós.

Estou farto de famílias demasiado normais e consertadinhas. Daquelas que amam só depois de pensarem. E das outras que não entendem que se pode ser feliz e ter-se lágrimas. Quero acabar com a família como "produto normalizado"! E quero que ela seja só, para sempre, protegida. Como "reserva natural" das imperfeições humanas, claro! E que elas mesmas - as imperfeições, "em pessoa" - sejam "O Património" mais imaterial de tudo o que, sendo imaterial, existe e, só por isso, nos dá humanidade.

Quero o direito a ter famílias imperfeitas. Daquelas que se assumem como o "patrocinador exclusivo" da memória. E só, por isso, nos fazem descobrir que sem pessoas imperfeitas não há amor!

subscreva